O milagre ou a decepção de Berna?

Era o duelo de dois opostos. A Alemanha ainda estava no período de transição para o futebol profissional. Não tinha tradição no esporte e enfrentava um adversário que não só liderava qualquer ranking mundial como botava medo em todo time que estivesse do outro lado. A aposta óbvia era contar os húngaros como campeões, mas o que se viu foi uma aula de superação.

Há quem defenda a tese de que o Milagre de Berna teve uma ajudinha farmacêutica. Outros preferem adotar a lógica que a Hungria estava “desfalcada” de Puskas, que ainda sofria com as dores no tornozelo, causadas pela mesma Alemanha na primeira fase. Sem poder fazer substituições durante a partida, Sebes se viu obrigado a manter o Major em campo, mesmo no sacrifício.

Tudo que Puskas fazia era estupendo. Alternando entre a brutalidade dos chutes de fora da área com a frieza na hora de aplicar um drible ou colocar uma bola para um colega, o “Major Galopante” tinha outros soldados que não deixavam a desejar em nenhum quesito. Desde 1950, aquela geração conseguiu ganhar respeito ao derrotar -e humilhar- grandes seleções. Foi assim que a reputação de invencível se criou, e até o ano de 1956, a Hungria só perdeu duas partidas, a primeira logo num ponto crucial.

Até onde interessa, os franzinos alemães entraram no gramado do Wankdorf, em Berna, para jogar de igual para igual com a temida máquina húngara. Todo o esquema pensado por Sebes ainda era revolucionário: atletas que se revezavam em suas funções, transformavam ataque em defesa e vice-versa. Foi sim o ponto de largada para a filosofia do futebol total trabalhada pela Holanda, vinte anos depois. Essa supremacia ficou inicialmente arriscada quando Puskas não pôde entregar os 100% de sua forma física.

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Puskas arrisca ao gol alemão
Foto: Soccer museum

Sem o Major em condições decentes, a Hungria até fez valer a sua superioridade e abriu 2 a 0 no placar, com Puskas e Czibor (numa falha clamorosa do arqueiro Turek, soltando a bola no meio da área) em menos de 8 minutos do primeiro tempo. O que se viu antes foi uma Alemanha que não deu espaços, apesar de errar muito na saída de bola. Morlock diminuiu num cruzamento de Rahn, se beneficiando da falha de Grosics na saída, aos 10. O panorama mudou drasticamente a partir daí.

Deixaram os alemães sonharem com a redenção e eles a alcançaram. Puskas até tentou fazer fila na defesa no minuto 12, tirou dois defensores para bailar, fez o que quis na grande área, mas foi desarmado por Liebrich. Foram pelo menos 20 minutos de muita intensidade em Berna, ataques francos e boas chegadas dos húngaros. O empate dos alemães veio com Rahn, após um escanteio. Quando o goleirão Grosics ia sair para tentar o soco, foi obstruído por Schäfer, que ficou parado na sua frente. 2 a 2 no placar e o drama tomou conta.

De repente, tudo pareceu mais favorável aos que dispunham de menos técnica. O barco de Sebes virou quando a Alemanha passou a acreditar mais em seu poder, a ter mais confiança. A situação de estar por um fio numa decisão não era familiar ao time. Puskas sentiu isso, assim como seus companheiros. De carta fora do baralho, o time germânico passou a desfrutar de mais tranquilidade para resolver o confronto. Acharam uma forma de deter aquela máquina, o time mais assombroso da década, aquele que causava arrepios pela sua competência.

Apareceu foi o trabalho de Turek, o mesmo goleiro que entregou de bandeja o segundo gol aos húngaros. O gigante arqueiro da Alemanha virou um paredão debaixo das traves e foi fundamental para manter o placar em 2 a 2. Grosics não ficou atrás do irmão de ofício. Defendeu um balaço de Schäfer, quase à queima roupa, antes do intervalo. Os alemães corriam demais, pareciam possuídos.

A caderneta de Sebes não tinha nenhuma variação ou resposta ao que a Alemanha apresentou no segundo tempo. O alemão Posipal também foi herói ao tirar um chute em cima da linha, no começo de um lance absolutamente maluco, um bombardeio dos magiares ao gol de Turek. A defesa germânica permaneceu sólida e entrava nas divididas com uma força descomunal, numa velocidade estranha. Claramente o duelo estava nivelado, mas será que só a motivação teria aumentado tanto assim o poder de fogo da Alemanha?

Não bastasse o peso das pernas e a lesão que incomodava, Puskas partiu sozinho pela direita e invadiu a área, batendo sem tanta força para a grande defesa de Turek, outro grande momento defensivo da Alemanha, que já não dava mais tanto campo para os adversários. Os passes cruzados ainda levavam perigo, mas nada que a retaguarda alemã não pudesse lidar.

Pouco antes dos 35 minutos da etapa complementar, quase nenhum dos presentes nas arquibancadas sabia o que esperar. Czibor apareceu em condição para sacramentar a vitória, mas Turek impediu com uma defesa providencial e quase circense, ao se jogar na frente da bola de olhos fechados. O arqueiro ainda levou uma joelhada, cambaleou, foi atendido pelos médicos, mas continuou em campo. Era a bravura que o povo alemão esperava ver.

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Rahn de frente com o goleirão Grosics
Foto: Guardian

Um vacilo. Um lance, dois dribles e um chute. Bola alta na área da Hungria, Lantos afastou de cabeça e ninguém acompanhou a sobra. Rahn dominou com muito espaço de fora da área, pensou e viu uma barreira de três oponentes logo na meia lua. Ajeitou e mandou um chute rasteiro, mortal para Grosics. Gol da Alemanha, gol do milagre de Berna, aos 39 do segundo tempo. Puskas ainda marcou para igualar o marcador, mas o gol foi anulado: o Major Galopante estava impedido.

Ao fim da batalha, um marco para os dois países, esportivamente falando. A Alemanha conquistava seu primeiro título, dando um passo enorme no progresso do futebol no país. Nove anos depois foi criada a Bundesliga, um exemplo de organização e de rentabilidade. Já a Hungria, além de ter protagonizado uma das maiores decepções da história do futebol, viu dois anos depois essa geração se desfazer em função da revolução húngara. As duas medalhas de ouro nas Olimpíadas de 64 e 68 não tiraram o peso da frustração de terem entrado para os livros do esporte como o lado perdedor daquela final em 54.

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Foto: World Cup blog

Assim como o Brasil de 82, a derrota da Hungria, ainda que por uma margem estreita, mostra que felizmente o futebol não contempla só os favoritos ou os mais talentosos. O óbvio não dá as cartas nem num caso tão contrastante como o da máquina húngara contra os franzinos alemães.

Nesse contexto, cabe a pergunta: será que podemos chamar de Milagre ou a Decepção de Berna a série de eventos que culminou no título da Alemanha em terras suíças? Assim como o mito da queda da Grande Hungria, coexiste a versão de que foram encontradas seringas e agulhas no vestiário alemão após a final daquela Copa. A suspeita é que o time teria injetado Pervitin, um estimulante. O que também foi rebatido com veemência pelos médicos responsáveis, que atestaram ter usado apenas Vitamina C.

A humanidade não precisa ser tão revisionista nesse caso. Macular uma história tão incrível –ainda que as acusações façam sentido- é mais do que os fãs podem aceitar. Engolir que o 3 a 2 decisivo foi uma vingança dos humilhados na primeira fase é bem menos indigesto do que deslegitimar a conquista.

Ficamos com o milagre, então.

*Trecho do texto publicado no e-book Dois Pontos, Senhores. Para visualizar o livro, clique aqui

Alemanha 3-2 Hungria
4 de julho de 1954, Wankdorf – Berna
Final da Copa do Mundo

Alemanha: Turek, Posipal, Kohlmeyer, Eckel, Liebrich, Mai, Morlock, Fritz Walter, Rahn, Ottmar Walter e Schäfer. Técnico: Sepp Herrberger

Hungria: Grosics, Busanszky, Lorant, Lantos, Bozsik, Zakarias, Hidegkuti, Czibor, Kócsis, Tóth e Puskas. Técnico: Gusztav Sebes

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