O gol mais comemorado na Escócia não adiantou nada

Imagine que a sua seleção fosse a mais promissora em muitos anos, chegasse numa Copa com um elenco invejável, mas passasse vergonha na fase de grupos. Feito isso, chegue ao jogo mais difícil da chave sem esperança alguma e vença. Pronto, agora você já pode se dizer um pouquinho escocês.

Quando se fala em elenco, o time da Escócia que foi para a Copa de 1978 era de brilhar os olhos da torcida. Hartford, Gemmill, Souness, Dalglish e Jordan. Nomes que brilhavam no futebol inglês naquela época. Ainda que o time que esteve na Espanha em 82 fosse bem mais recheado de bons nomes (Hansen, McLeish, Strachan, Wark, Brazil, Robertson e Archibald), criou-se um clima de que aquela geração em questão fosse capaz de conquistar grandes coisas.

Comandados pelo treinador Ally MacLeod, os escoceses chegaram na Argentina com muita expectativa. O próprio McLeod dizia que eles conseguiriam ao menos uma medalha no torneio. Contudo, sabemos o quanto é perigoso cantar de galo numa competição como essa, não? O grupo da Escócia não era brincadeira. Holanda, a finalista de 74, Peru, um dos melhores times sul-americanos na época e em grande fase, além do Irã. Na estreia, os escoceses levaram um baile do Peru por 3 a 1. Por si só, esse resultado já poderia significar um baita problema na classificação.

Uma missão quase impossível

Que dirá então do empate contra o Irã em 1 a 1? Piorou ainda mais a vida da rapazeada de kilt. Foi aí que sobrou logo a batata quente no último desafio: a temida Holanda. A missão de MacLeod e seus comandados era de fazer pelo menos três gols de diferença para tentar a classificação. Sem Cruyff, a Holanda continuava sendo um time de nível excelente. O treinador era Ernst Happel, que conhecia bem o futebol local após ser campeão europeu com o Feyenoord em 70. A base era praticamente a mesma da equipe que encantou o mundo em 74: Jongbloed, Krol, Suurbier, Jansen, Neeskens, Rensenbrink, Rep, Willy e René van de Kerkhof.

Parecia impossível operar um milagre e vencer a Laranja Mecânica, tão técnica e versátil. A Escócia, por sua vez, ainda carregava aquele estigma de passar demais a bola perto da área e não fazer nada com ela. Uma variação mais conservadora e menos irritante do tiki-taka, já que os escoceses não ficavam tanto tempo assim com a bola.

Souness fez a sua parte como cérebro pensante daquele time e armou boas jogadas ofensivas. Numa delas, botou a bola na cabeça de Rioch, que acertou a trave de Jongbloed, o melhor goleiro de camisa 8 que o mundo já viu. Tudo começou a conspirar a favor dos escoceses quando Neeskens saiu lesionado aos dez minutos. Ele não estava em perfeitas condições físicas, mas Happel insistiu em colocá-lo no jogo.

Aos 34 minutos, pênalti para a Holanda. Rensenbrink marcou o que seria o gol 1000 da história das Copas, deslocando o goleiro Rough. Por incrível que pareça, a Escócia conseguiu se acalmar em campo e foi buscar o resultado. Gemmill então chamou a responsabilidade e infernizou a marcação. Irreconhecíveis, os holandeses apelavam para as pancadas. A porrada comeu solta até que um gol da Escócia foi anulado. O árbitro viu falta de Dalglish no zagueiro. O empate veio pelos pés do mesmo Dalglish, que aproveitou uma cabeçada de Jordan no meio da área, pouco antes do intervalo. 1 a 1.

Nervosa e perdida em campo, a Holanda aceitou o estilo de jogo escocês e se viu com a faca no pescoço. Logo no primeiro minuto do segundo tempo, pênalti para a Escócia. Gemmill acertou o cantinho direito do gol e virou. A essa altura, todo torcedor já acreditava que aqueles três gols de diferença poderiam acontecer.

Gemmill, o costureiro

O nanico escocês liderou seu time e carregou a bola com uma determinação invejável. Parecia que ele correria até morrer. O lance que resultou no terceiro gol ficará marcado para sempre nas Copas como o mais bonito daquela edição. Kennedy acionou Dalglish na ponta direita, o atacante do Liverpool tentou prender a bola e foi derrubado por dois marcadores. Gemmill se aproximou e ficou com ela, sob o olhar atento de outro holandês. Deixou Jansen e Krol no chão com dribles curtos, Poortvliet também ficou na saudade até que o escocês ficou de cara com Jongbloed, no meio da área. Uma finalização com classe por cima e as redes balançaram. 3 a 1. Toda a Escócia tremeu com aquela obra de arte executada pelo camisa 15.

A euforia foi representada numa cena do filme Trainspotting, de 1995, com Ewan McGregor. Ewan fazia um jovem atormentado chamado Mark Renton, um drogado convicto que estava perdido numa festa e encontrou Diane num bar. Os dois vão para a casa dela e transam. Quando Mark tem um orgasmo, ele diz que não se sentia assim desde o famoso gol de Gemmill, em 78. Não que o jogador tenha se sentido orgulhoso de aparecer num filme nessa circunstância…

Em todo caso, a Holanda ainda diminuiu o placar e se classificou em segundo, atrás do Peru, com 3 pontos. Os sul-americanos marcaram 5 e avançaram com uma goleada contra o Irã. A Escócia voltou para casa com os mesmos três pontos da Holanda, só perdendo no saldo de gols.

Escócia 3-2 Holanda
11 de junho de 1978, Malvinas Argentinas, Mendoza
Fase de Grupos da Copa do Mundo

Escócia: Rough, Donachie, Buchan, Kennedy, Forsyth, Rioch, Hartford, Gemmill, Souness, Dalglish e Jordan. Técnico: Ally MacLeod

Holanda: Jongbloed, Poortvliet, Krol, Rijsbergen (Wildschut), Suurbier, Jansen, Willy van de Kerkhof, Rensenbrink, Neeskens (Boskamp), René van de Kerkhof e Rep. Técnico: Ernst Happel

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *