Resolvendo problemas com as próprias mãos

Ao levantar da cama naquele domingo, Jorgete não imaginava que passaria por um drama comum na vida de muita gente: ter de resolver seus problemas sozinho. O meia esquerda do Empada Futebol Clube, time acanhado que joga o Varzeano de Embu, em São Paulo, saiu de seu quarto, tomou uma ducha e se aprontou para o dia de jogo.

[Tome nota: essa é uma história fictícia inspirada em http://globoesporte.globo.com/to/noticia/2013/11/sem-ambulancia-no-estadio-jogador-liga-para-o-samu-e-pede-socorro.html]

Estava calor, ele já tinha deixado a mala pronta, tomou um café quente feito pela mãe, comeu um pão de queijo do dia anterior e tomou o caminho do campo do Tranca Rua Futebol e Samba, adversário da rodada. Deixou a louça toda lá, ganhou carona do tio Alfredo e usou a chuteira de saudoso primo Rodielly, morto um mês antes numa batida policial.

Era um confronto difícil, valia vaga na semifinal do campeonato, fora de casa, pressão da torcida que soltava rojões do barranco. Clima de festa para os mandantes, inferno, xingamentos e copos com xixi voando perto do banco dos visitantes. Aliás, banco era força de expressão. Três guarda-sóis enfileirados que a diretoria pegou do vizinho sorveteiro.

Protegidos do sol escaldante, mas não das ofensas vindas do barranco, o pessoal do Empada se trocou, voltou ao terrão esburacado e se aqueceu. Ali da linha de fundo, Seu Jair estava com as portas de sua Kombi abertas para qualquer eventualidade. Ele sempre fazia o papel de motorista de ambulância do recinto.

Jorgete estava tranquilo. Sabia que se fizesse o de sempre, garantiria pelo menos uns três passes para gol. Simonal, o armário que ficava no ataque, abria os braços de costas para a defesa e dominava qualquer bola que o companheiro ajeitasse, fosse pelo alto ou pelo chão. Na direita, Régis Padaria preferia carregar a pelota até o gol. Também adorava marcar a saída e roubar a bola no campo adversário. Inclusive ganhou esse apelido graças à sua capacidade de ser gatuno. Quando criança, era o terror da padaria da rua. Pedia três pãezinhos e 50 centavos em chiclete. Na hora de pagar, esperava a fila encher o caixa e se agachava para sair sem ser visto.

Com vinte minutos de jogo, o empate em zero a zero deixava indefinida a situação de ambos, aumentando a tensão a cada lance. Depois de um lateral mal cobrado por Gilsinho, do Empada, o brucutu Jacarandá, do Tranca Rua, deu uma entrada criminosa em Nicolau. O volante do Empada foi carregado pelos massagistas em cima de uma placa de imobiliária. No mínimo tinha uma torção no tornozelo.

De longe, Jorgete observava Nicolau se contorcendo de dor e entrando na Kombi do Seu Jair, rumo ao Pronto Socorro. Apoiou no beque adversário e deu um sorriso amarelo, como se pedisse para que a jogada não fosse repetida com ele. O capitão do Empada, Gevoá (sim, sua mãe era Testemunha de Jeová, mas o cara do cartório, ateu, pregou-lhe uma peça na certidão, colocando o nome errado no filho), esbravejava com o árbitro, que nem amarelo deu para Jacarandá. Deu-se a desgraça.

A turma do deixa disso precisou interferir para que a discussão não terminasse em quebra pau. Mesmo porque, todo quebra pau com o pessoal do Tranca Rua terminava mal, a torcida era das mais baderneiras. Não era uma barra brava, era uma barra possessa, de deixar as argentinas no chinelo. Foram dez minutos de paz, até que o Empada achou um gol com Buzina, que fez a bobagem de comemorar perto do alambrado com a dança da motinha. O funk, geralmente bem aceito na comunidade, caiu como uma bomba: dois fulanos mais exaltados já pegavam ripas de madeira e queriam invadir o campo. Um gambé botou a mão na cintura e ameaçou atirar para dispersar a multidão. Eles acalmaram. Dentro das quatro linhas, não foi bem assim que procedeu.

Gasolina, técnico do Tranca Rua, mandou entrar Ubaldo, zagueiro caneleiro e que sempre faz o serviço sujo. Só conseguiu estar disponível porque o agente da sua liberdade condicional estava fora da cidade. Cumpria pena de três anos e seis meses por homicídio e formação de quadrilha. Entrou com uma missão óbvia: levar pra casa alguma perna do Empada.

Logo de cara, Ubaldo ficou frente a frente com Jorgete, que passou o pé por cima da bola uma vez e correu para a esquerda, driblando o marcador. Bufando, o detento vencido esperou o lance seguinte para se vingar. Escanteio para o Empada, Jorgete subiu para cabecear e levou uma joelhada na costela. Caindo no chão, torceu o joelho. Desgraça pura, apesar da vitória parcial.

Levado às pressas para fora do campo de jogo, o meia urrava e mordia uma toalha suja para tentar aliviar a dor. Nada feito. Seu Jair ainda não tinha voltado do Pronto Socorro, nem ambulância improvisada tinha mais. Quebrado e desesperado, Jorgete só ouvia gente berrando: “tá chegando, menino, guenta esse regaço aí”. Estava difícil.

Conversava com Marinho, massagista, mas de massagista o velho não tinha nada. Era só um charlatão que encharcava o contundido com éter. Só que como Nicolau também tinha levado o vidro com o remédio, Jorgete ficou num mato sem cachorro. Acabou o primeiro tempo, começou o segundo e nada do Seu Jair aparecer. Desesperado, pediu para que alguém alcançasse sua bolsa. Arrancou de lá um celular sem crédito e discou 911, 190, 192, 666, qualquer coisa que o tirasse daquele inferno. Depois do terceiro copinho com xixi que voou por perto, Jorgete conseguiu que alguém no Samu o atendesse. Pediu uma ambulância, uma viatura de polícia, um bombeiro, até o Gugu.

Chegou foi uma Fiorino dirigida por Turcão, enfermeiro do Samu, de folga. Se apressou para enfiar o menino dentro da cabine e tocou até o Pronto Socorro, lotado. Jorgete chegou lá, viu a fila, aquele monte de gente esperando atendimento. Nego com febre, com tosse, com dor de garganta, com perna quebrada, bala no ombro. Chorou. Pediu a Turcão que lhe deixasse numa farmácia.

Comprou um esparadrapo, uns analgésicos, voltou pra casa e se virou. Só não lavou a louça.

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