Crianças, em 2013… Parte II

Quero acreditar que toda essa mobilização de jogadores no Brasileirão tenha mesmo efeitos práticos no futuro. Que a CBF mexa na forma como rege nossos campeonatos ou que dê lugar a um órgão mais responsável e transparente. (Leia o texto do link antes de prosseguir) Há tempos nós pedimos que o bom senso volte a ser tendência, não um ato heróico. Talvez tenha chegado a hora de ver essa mudança.

Crianças, vocês devem lembrar quando eu lhes contei sobre o Brasileirão de 2013, não? Pois é, quis deixar essa história pra hoje, pra não acabar logo com a graça. Naquele ano que nós vimos uma grande parcela de times lutando contra o rebaixamento, também tivemos dezenas de jogadores lutando contra os desmandos da CBF, lembra aquele símbolo que ia na camisa do Brasil? Então, isso mesmo, era uma confederação que tinha a responsabilidade de organizar os nossos campeonatos nacionais, arrecadava centenas de milhões de dólares, mas estranhamente, o futebol brasileiro não via muita evolução.

Pois é, meninos, numa quarta-feira em que o Cruzeiro foi consagrado campeão NO INTERVALO do seu jogo, tivemos uma onda de protestos. Sim, abram o seus livros de história na página que fala sobre o “Ano do vem pra rua”. Aí, essa mesmo. Tá vendo esse pessoal caminhando entre os ônibus? Pois é, desde que eles resolveram se mobilizar no meio do ano, o país resolveu que não deveria mais ficar sentado e xingando diante da TV. No entanto, como os jogadores ganham a vida correndo atrás da bola, fizeram o inverso, com a mesma intenção de mostrar que estavam insatisfeitos com o sistema vigente, que fazia os times enfrentarem uma maratona de jogos até a completa exaustão ao fim do ano. Eles tinham poucos dias de férias em janeiro, precisavam correr para a pré-temporada, estaduais e começava tudo de novo. Um horror.

Todos eles cruzaram os braços no meio-campo após o apito inicial. Foi uma coisa belíssima, crianças. O mais engraçado nessa história foi o pessoal de São Paulo e Flamengo, que após ameaça de cartão amarelo para todos os presentes em campo, resolveram ficar tocando a bola entre si, sem se atacar por um minuto. Imagino que o senhor árbitro tenha sentido uma vontade súbita de enfiar a cabeça num buraco no gramado. Depois disso, teve irrigador funcionando na hora errada e paralisando o jogo, parecia parte do protesto como um todo, que deu o seu recado. A cereja do bolo foi quando 20 protestantes mascarados sentaram no meio do campo e impediram a bola de passar do círculo central. Eles só dispersaram quando índios os atacaram com flechas de fogo.

– Flechas de fogo, vô? Índios? Gente mascarada? Mas era jogo de futebol ou colonização?
– Espera aí, eu acho que confundi o protesto.
– Tinha índio mesmo ou é história de pescador, vô?
– Claro que tinha! Eles pularam para dentro do campo, estavam escondidos atrás das placas.
– Que maneiro!

Os atletas se reuniram e formaram um grupo chamado Bom Senso FC, que se eu já não disse antes, era um pessoal que procurava melhores condições de trabalho, visando também otimizar a qualidade do futebol apresentado aqui. Vários figurões como Rogério Ceni, Alex, Paulandré e Zé Roberto encabeçaram as ações.

Imaginem vocês, crianças, que nós chegamos a um ponto tão preocupante na sociedade, que precisamos ressuscitar o bom senso. Desde criança a gente aprende que é sempre bom agir com bom senso, que é preciso ser honesto, que nossa vida profissional tem de caminhar de mãos dadas com nossas necessidades pessoais, mas sabe-se lá porque, quando chega a vida adulta, todo mundo esquece isso e só sente falta quando envelhece. Não esquecer disso é como guardar a tabuada do 3 numa gaveta, trancar e jogar a chave fora. Mas a gente age como um coletivo escroto e canibal. E isso explica porque eu não sei a tabuada do três.

– Vovô, você falou palavrão.
– Falei?
– Você falou escroto.
– OLHA ESSA BOCA, CRIANÇA! Foi só força de expressão…

Como eu dizia, a nossa visão de mundo quando criança é praticamente destruída e mastigada pelo sistema. A gente se vê com um suborno aqui, uma vista grossa ali, uma canalhice acolá, e quando vê, tá corrompido. Esses caras, crianças, esses caras jogaram em tantos lugares que vocês nem podem imaginar. Eles viram escândalos de arbitragem, de manipulação de resultado, de título impugnado e outra série de atos calhordas que quase acabaram com a credibilidade do futebol. Se vocês estão vendo o futebol como ele é hoje, 50 anos depois daquele 13 de novembro de 2013, é porque eles foram bem sucedidos. Precisaram invadir navios piratas de cartolas, dar tiros de canhão contra a fortaleza da CBF e saquear um baú que tinha a escritura do controle de todo o futebol brasileiro.

– Como assim navio pirata, vô?
– É. Navio pirata. Várias dessas batalhas foram travadas no ar, no mar e na terra.
– Muita gente morreu?
– Não, só o respeito mesmo.

Meu ponto, crianças, é que bom senso não é só querer que o trabalho não seja mais do que o seu corpo pode suportar. Bom senso é mais uma porrada de deveres cívicos, de atitudes e coisas que a gente finge não ter importância, finge não pesar no nosso caráter. O bom senso deveria nortear nosso comportamento como pessoas civilizadas, não ser uma ferramenta emergencial em momentos dramáticos.

Dizem que naquela noite, o título do Cruzeiro ficou pequeno diante dessa mobilização. Sugiro que vocês analisem o panorama de hoje, em 2063, e me digam se é verdade. A gente naquele dia não conseguiu.

– Mas vô, eu tenho só oito anos, eu não sei dizer.
– Oito anos? Já? Como o tempo passa rápido…

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