A promessa não cumprida da Pérola Negra

Laurie Cunningham foi um dos mais talentosos jogadores ingleses a ser praticamente esquecido em convocações para a seleção. Revelado pelo West Brom, Laurie quebrou uma série de barreiras durante seu tempo de jogador, mas colecionou histórias trágicas até a sua morte em 1989.

Parte de um dos times mais fascinantes que o West Brom teve, nos anos 70, Laurie Cunningham é tido como um talento não reconhecido na seleção inglesa. O meia foi o líder de um time lembrado como “The Three Degrees”, em homenagem ao trio de soul americano da mesma época.

Quando os futebolistas negros ainda começavam a conquistar seu espaço no futebol inglês, Laurie era o mais talentoso dos seus companheiros no WBA. Cyrille Regis e Brendan Batson formavam uma equipe competitiva que lutou pela ponta da Football League no seu auge. Naquele tempo, o racismo era comum nas arquibancadas, e graças a Cunningham essas ofensas eram oprimidas pelo vistoso futebol apresentado.

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Laurie, Batson e Regis, The Three Degrees do WBA
Foto: Daily Mail

Laurie foi revelado no Leyton Orient após ser rejeitado pelo Arsenal, em 1974. Ficou três anos na equipe antes de ser vendido ao WBA, onde teve seu auge. O meia tinha um estilo único e explosivo. Vários jogadores que conviveram com ele no Real Madrid dizem que ele era mais rápido do que Cristiano Ronaldo. Excelente armador e muito forte nas arrancadas com a bola, Cunningham detonou o Barça em 1980, num clássico dentro do Camp Nou e foi aplaudido pela torcida culé. A manchete do jornal AS após aquele clássico foi “O homem que causou um motim no Camp Nou”.

As atuações pelo West Brom chamaram a atenção do Real Madrid, especialmente durante uma partida dos Baggies contra o Valencia pela Copa UEFA. Na temporada seguinte, Laurie seria negociado com os espanhóis por um valor considerado absurdo para a época.

Aos 22 anos, o inglês daria um salto de qualidade na sua trajetória. Se no clube era incontestável, ainda demorou a integrar a seleção inglesa. Com apenas seis convocações antes de sua chegada no Santiago Bernabéu, Cunningham brilhou apenas no seu começo pelo Real, onde ficou conhecido como “Pérola Negra” e teve uma excelente participação na decisão europeia diante do Liverpool, em 1981. Ele foi o primeiro jogador inglês a atuar com a camisa madridista.

A luta contra as contusões

Depois disso, nada foi a mesma coisa para o inglês. Sempre contundido e jogando abaixo do que se esperava, passou por vários problemas físicos e psicológicos. O West Brom também estava em maus lençóis, vendendo seus principais talentos e nunca mais apresentando a mesma forma dos anos 70, com os Three Degrees. Em 1982, seu irmão Keith foi devastado por uma tragédia familiar: sua esposa e duas filhas foram assassinadas por Wilbert Dyce, um psicopata que estava à solta em Dalston, na Inglaterra. A sua condenação, no entanto, aconteceu só em 2009, quando um jornalista que pesquisava sobre a vida de Laurie resolveu ir atrás de informações sobre o caso, que estava arquivado. Dyce pegou prisão perpétua.

Pediu para não jogar

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Foto: The FA

Emprestado ao Manchester United em 1983, Laurie voltou a trabalhar com Ron Atkinson, seu treinador no West Brom. De fora da final da FA Cup contra o Brighton, o meia pediu para não ser escalado pois não se sentia disposto a estar em campo num jogo tão importante.

Fez pouca coisa antes de ser repassado ao Sporting Gijón, onde tentou retomar a boa forma. Calejado por lesões musculares e uma fratura no dedão, ficou na Espanha até 1984, quando foi vendido pelo Real ao Marseille. Participou de alguns compromissos da Inglaterra nas eliminatórias para a Copa de 82, mas ficou de fora após passar por operações no pé.

A gangue dos malucos

Em claro declínio técnico, Cunningham ainda defendeu Leicester City e Rayo Vallecano antes de ter seu último desafio no futebol inglês. Contratado pelo Wimbledon, ficou no banco em grande parte da campanha do time conhecido como “The Crazy Gang”, que conquistou a FA Cup de 88 contra o Liverpool. Vinnie Jones, Dennis Wise e Terry Phelan jogaram ao seu lado naquela campanha.

“Ele era tão instintivo, forte e técnico, mas acabou jogando aquele estilo tosco de bola longa, engessado. Era um grande contraste com os anos em que ele jogou pelo Real Madrid em relação ao que ele fazia jogando pelo Wimbledon. Seu estilo não lembrava nem de longe o que ele fez conosco no WBA, isso demonstrava o quanto ele decaiu”, comentou Cyrille Regis em entrevista à BBC.

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Foto: WBA.co.uk

A promoção e o acidente

O último registro de Cunningham como jogador foi no Rayo Vallecano, onde havia atuado em 87. Novamente na segunda divisão espanhola, Laurie obteve êxito ao marcar o gol que garantiu o acesso dos Vallecas à elite nacional, em 1989. Dois meses depois, em Madrid, sofreu um acidente de carro e morreu aos 33 anos, deixando uma esposa e uma filha.

O caso de Laurie é mais um desses de um jovem que poderia ter ganhado o mundo com a bola nos pés, mas por diferentes razões e golpes do destino, não conseguiu manter o nível por muito tempo. Vitimado pelas lesões e por uma queda precoce de produção, Cunningham deixou como legado o título espanhol de 80, uma boa atuação na final europeia de 1981 e uma promessa não cumprida de grande jogador.

Laurie Cunningham
Nascimento: 08/03/1956, em Londres – Inglaterra
Posição: Meia, segundo atacante
Clubes: 1974-77 Leyton Orient, 1977-79 West Bromwich, 1979-84 Real Madrid, 1983 Manchester United, 1983 Sporting Gijón, 1984-85 Olympique Marseille, 1985-86 Leicester City, 1986-87 Rayo Vallecano, 1987-88 Wimbledon, 1987-88 Charleroi, 1988-89 Rayo Vallecano.
Títulos: La Liga 1980, Copa do Rei 1980 e 82, FA Cup 1988
Participações em Copas: nenhuma
Eurocopas: nenhuma

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