Nada manchará a carreira de Zidane

Toda pátria tem seus heróis. Sejam eles de guerra ou no esporte. E num mundo cada vez mais desacreditado dos grandes milagres ou dos feitos por bondade e talento, Zidane tirou a França do status de piada para alçá-la até a glória.

De origem argelina e até carregando um Yazid no nome, Zinedine poderia muito bem ter jogado pela fraca seleção da Argélia em meados dos anos 1990, mas de acordo com alguns rumores, foi recusado pelo treinador da época, que alegou muita lerdeza no estilo de jogo do jovem. Verdadeira ou não, é uma hipótese que poderia ter mudado completamente a vida de Zidane. Sua história poderia ter sido extremamente diferente no seu heroismo e na forma como é visto por muitos brasileiros.

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Zidane, em 1994 (Foto: Who ate all the pies)

Preto no branco

Pense bem, a França já era a casa de um legítimo anti-herói como Alain Prost, conhecido como O Professor. Nas pistas, o baixinho de nariz torto desafiava os limites da velocidade e criou uma rivalidade quase mortal com Ayrton Senna, o homem que transcendeu toda e qualquer idolatria dos brasileiros. Prost e Zidane teriam sim uma coisa em comum: serem o preto que contrastava com o branco. No quadro em que Zizou é pintado aqui por essas terras, o branco seria Ronaldo. Em dada ocasião, as cores se inverteram, sem nunca deixarem de ser completamente opostas. O auge do francês coincide com o momento mais trágico da carreira do brasileiro. Oito anos depois, mais velho e sábio, o capitão de Les Bleus tornou a fazer da vida do camisa 9 um inferno. Drible pra cá, drible pra lá, chapéu, à frente uma França que crescia ao enfrentar o Brasil.

Antes de se tornar em um gênio de seu tempo, Zinedine precisou penar pelo reconhecimento. Voltamos a 1994. Um gol de Kostadinov tirou as chances da França estar na Copa dos Estados Unidos. Uma reconstrução era necessária e custou o cargo de Gérard Houllier. Seu assistente, Aimé Jacquet, assumiu a bomba de tentar recuperar a moral do time. Começou a apostar em nomes que estavam fazendo sucesso no cenário francês. Outrora considerado “muito lerdo”, Zidane teve duas chances em agosto de 94. Fez dois gols contra a República Tcheca num amistoso em Bordeaux, onde já jogava desde 1992.

Começou sua caminhada em 1989, no Cannes, onde só foi ter chances consideráveis com a chegada da nova década. A boa técnica, a boa visão de jogo e sobretudo o seu controle de bola eram armas com as quais o Bordeaux pôde contar para chegar até a final da Copa UEFA de 1996, perdida contra o Bayern. Até hoje é o mais longe que os girondinos chegaram numa competição europeia. Não bastava para tornar o jovem de 24 anos numa realidade.

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Foto: Who ate all the pies

A promessa vingou na Juventus

Pouco após a Eurocopa de 1996, que nem disputou, foi negociado com a Juventus por um valor baixíssimo. Por cerca de 3 milhões de libras, se mudou para a Itália e deixou os dirigentes de Newcastle e Blackburn a ver navios. Ainda tido como promessa, estourou rápido na Velha Senhora e por lá foi campeão italiano duas vezes, vice da Liga dos Campeões duas vezes consecutivas (Dortmund em 97, Real Madrid em 98), sem falar no título do Intercontinental em 96, contra o River Plate. O segundo vice europeu, diante dos madridistas, mexeu com o brio do francês. Ele precisava reagir no próximo grande torneio que teria pela frente: a Copa do Mundo na França.

Em casa, a França lutava pela sua honra. E o fez até o final, amassando o Brasil com uma atuação digna de coroa por parte de Zidane. A primeira fase transcorreu sem sustos: 3-0 contra uma África do Sul inocente, 4-0 numa Arábia Saudita despreparada e um 2-1 suado numa experiente Dinamarca. Zizou levou cartão amarelo na estreia e viu o cartão vermelho contra os árabes, perdendo os dois jogos seguintes. Ainda mais suado foi derrubar o valente Paraguai do monstro Gamarra, que mesmo com um braço imobilizado, seguiu tentando evitar o inevitável: aquele gol de Blanc na prorrogação que colocou os donos da casa nas quartas. Outro duríssimo oponente foi a Itália, que assim como nos Estados Unidos, segurou um empate sem gols contra o campeão, mas fraquejou nos penais. Di Biagio era o vilão da vez. A semifinal, contra a Croácia? Um teste para nenhum coração francês botar defeito. 2 a 1 de virada, com dois gols de Thuram e uma expulsão de Blanc após confusão com Bilic.

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Foto: FIFA

Herói de uns, vilão de outros

A França se credenciava para a sua primeira final de Copa do Mundo, justamente diante de sua torcida. Zidane? Conduzia o meio-campo como quem ensinava português para uma criança da primeira série. Ele esperou até o momento crucial para aparecer como o grande responsável por aquela conquista. Esteve em pelo menos cinquenta lugares diferentes ao mesmo tempo contra o Brasil, especialmente naquelas cabeçadas, quando subiu sozinho e mandou para o fundo das redes a esperança do penta brasileiro. Como naquele quadro em preto e branco citado lá em cima, Zizou brilhou num momento de pura desgraça para Ronaldo. A história das Copas não permitiria que só um dos dois sentisse o sabor da conquista. Naturalmente virou vilão para os milhões de brasileiros que tiveram o sonho do título levado às ruínas.

Já como jogador do Real Madrid, clube que passou a defender desde 2001, Zizou chegou no Santiago Bernabéu por 75 milhões de euros e no ano seguinte fez valer o investimento ao marcar o golaço decisivo de voleio contra o Leverkusen na final da Liga dos Campeões de 2002. Dias depois, viveu o outro lado da moeda ao chegar machucado no Mundial da Coreia e Japão. Pagou por tantos que fez chorar quando viu a França cair logo na primeira fase, assim como a Argentina. Criou-se uma rivalidade ao ponto em que qualquer derrota francesa seria motivo de imensa festa no Brasil. E assim se fez no pentacampeonato liderado por quem? Ele mesmo, Ronaldo, um dos artilheiros da competição e autor dos dois gols contra a Alemanha na decisão. Que coincidência essa de ser careca e buscar a redenção do seu povo dentro do campo.

Ele está vivo, bem vivo

“Zidane está velho e vive de lampejos”, “A França não é mais aquilo tudo”, diziam. A classificação na bacia das almas para a segunda fase da Copa de 2006 até ameaçou dar razão aos mais céticos. Afinal, empatar contra a Suíça e a Coreia do Sul era mesmo muito abaixo do esperado. Zizou estava aposentado e precisou dar uma última mão ao seu país. Aceitou disputar a Copa de 2006 como capitão e líder do elenco. Já se passavam dois anos desde que ele não era mais convocado, já que desistiu após a eliminação para a Grécia na Euro de 2004. Suspenso para o duelo contra Togo, com dois cartões amarelos, viu de fora a vitória francesa. Aturou as críticas e as silenciou no jogo seguinte, um dos seus mais fascinantes em 17 anos como profissional.

A bola que era refém

As 43 mil pessoas que estiveram em Hannover acompanharam uma aula de futebol ministrada por Zidane e seus companheiros, que atropelaram a Espanha com um 3-1, gols de Ribéry, Vieira e claro, do capitão. Se havia alguma dúvida do que ele podia fazer em campo, ela caía por terra após o apito final. Fez tudo e mais um pouco, resgatou a confiança dos seus torcedores e súditos. Nas quartas de final, diante do Brasil, os velhos rivais voltavam ao campo de batalha. Zidane, Ronaldo, Roberto Carlos, Barthez, Henry, Cafu? Em Frankfurt, os brasileiros mal viram a cor da bola. Se contassem aos de amarelo que ela era rosa com detalhes em verde, provavelmente acreditariam. Com a posse, Zidane parecia estar num tempo diferente dos demais. Ainda que sem muita velocidade, coisa que nunca foi seu ponto forte, dominava a pelota como queria, tratava ela com o devido carinho, fazendo dela uma vítima da Síndrome de Estocolmo. Chapelava marcadores, encontrava espaços livres em campo e humilhava seus antigos companheiros, constrangidos com a sua onipresença. De seus pés saiu o cruzamento que Henry completou para as redes. Zidane 2×0 Brasil em Copas.

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Foto: Imortais do futebol

Uma despedida violenta

Diante de Portugal, novo duelo difícil. E o gol decisivo que colocaria os franceses mais uma vez na final contra um inimigo íntimo. A Itália, antes presa, virou algoz nos pênaltis. Na decisão, o capitão francês novamente passeou no gramado. Deixou o mundo boquiaberto com um chute pra lá de audacioso de cavadinha, relembrando Antonín Panenka. O gênio dava toda a impressão de que iria compor mais uma melodia doce para o seu povo. Logo Zinedine, que cansou de sentar no seu piano, tocando algumas das óperas mais complexas para um futebolista, dançou conforme o ritmo ditado por um deles. Um adversário, um inimigo: Materazzi cantou em seu ouvido o tema da ira, da perdição. Tomado pela cólera que mata, Zidane puniu o italiano com uma cabeçada no meio do peito. Poderia ser um tiro de canhão, mas a bala só serviu para devastar as terras francesas numa guerra em que esteve muito perto de ganhar.

Expulso de campo, Zizou teve uma expulsão que lembrou os seus dias como jovem no Bourdeaux, quando agrediu Desailly durante um jogo contra o Marseille, em 1993. Para o craque que se acostumou a ficar frio nos instantes mais decisivos de sua carreira, ter como última cena um cartão vermelho em final de Copa parece não ter sido justo para Zidane. Qualquer outro teria maculado os anos vitoriosos com aquela atitude. Não ele. Foi grande demais para ter seus feitos resumidos apenas a uma agressão desmedida.

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