A vingança que não sacia

Dizem os antigos que não há fúria no mundo que seja tão eficaz quanto uma boa vingança, sobretudo se ela vem na mesma moeda. Quando o Flamengo começava a dominar o futebol carioca nos anos 70, liderado por Zico, uma goleada do Botafogo mexeu com o brio do rubro-negro.

Na verdade os antigos não dizem nada, foi só uma forma de começar o texto com uma frase de impacto. Quem ama futebol, certamente já deve ter visto seu time levar uma goleada desconcertante em algum ponto. Quando isso acontece num clássico, a raiva é obviamente maior e o desejo de vingança enlouquece, faz cair cabelos, faz o sangue ferver.

“Foi até covardia”

No dia 15 de novembro de 1972, o Botafogo causou uma das maiores humilhações da história do Flamengo, ao golear o rival por 6 a 0 numa partida do primeiro turno do Brasileirão. Naquela noite do Maracanã, 46 mil pessoas viram o Glorioso de Jairzinho e Fischer castigar o Fla treinado por Zagallo e liderado em campo por Paulo César Caju.

As manchetes dos jornais no dia seguinte davam conta de um grande baile, que ironicamente foi tocado no dia do aniversário de 77 anos do Flamengo. “Foi até covardia”, cravou o Jornal dos Sports em sacada de Roberto Porto e José Trajano. Como presente, uma atuação fantasmagórica do Furacão Jairzinho, que marcou três vezes. Relatos dão conta de que em certo ponto, Paulo César Caju pediu para que os adversários diminuíssem o ritmo, pois o placar já estava ótimo. Além de Jair, Fischer marcou duas vezes e Ferreti fechou o caixão.

Por nove anos o Flamengo conviveu com as piadinhas, a zueira impiedosa da torcida do Botafogo (que sempre levava faixas, a mais célebre delas era a “nós gostamos de vo6”), até que em 1981, ano pra lá de especial, obteve sua tão desejada vingança. Já com aquele time maravilhoso de Zico em campo, o rubro-negro rasgou os protocolos e destruiu o rival no mesmo palco, com os mesmos números só que com algo a mais: a gana de punir pela humilhação de 72.

O jogo da forra

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Era a hora do Flamengo de Zico entrar em campo, na condição de um dos times mais temidos da história do futebol brasileiro. Em 8 de novembro de 1981, com quase 70 mil pessoas no Maracanã, o Galinho estava determinado a derrubar aquele muro. Nunes abriu o placar, Zico, Lico e Adílio deram o tom de revanche.

Com 30 do segundo tempo, Zico fez o quinto, de pênalti, e o tempo não queria passar. Faltava alguma coisa. Faltava um gol para que o 6 a 0 fosse devidamente devolvido. O Flamengo tinha a bola, passava ela diante dos olhos e da marcação inoperante do Botafogo. Passa pra cá, passa pra lá, tentava abrir espaço. De Nunes para Lico, de Lico para Adílio, de Adílio para Zico. Adílio cruzou, Zico dividiu de cabeça e a bola sobrou limpa na entrada da área para Andrade mandar um canhão para fechar os trabalhos. Como bem lembra o amigo Arthur Chrispin, aquele dia foi ainda mais especial quando Jairzinho entrou em campo, já com 4 a 0 para o Fla. Ele era o único remanescente do time que torturou os pupilos de Zagallo.

Mais uma porrada

Se o Flamengo enterrou o fantasma de 1972 com o mesmo placar, 32 anos depois, tornou a castigar o Botafogo, agora pela Copa do Brasil. Nas quartas de final da competição, o time de Hernane pulverizou as chances de Seedorf conquistar um título nacional pelo Glorioso em 2013. Foram três gols do Brocador e um de Léo Moura (aniversariante da noite). Flamengo na semifinal. Foi mais um troco ou apenas um recado de quem quer estar no comando do clássico?

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