A má fase não apaga os bons tempos

Era realmente muito fácil virar fã de um centroavante como Fernando Torres até 2011. O espanhol viveu bons anos no Atlético de Madrid e estourou para todo o mundo pelo Liverpool, onde se acostumou a fazer gol de todas as formas. A má fase de Torres ao se mudar para o Chelsea durou quase dois anos, os mais longos de sua vida.

Até se mudar para o Chelsea e dizer a terrível frase que “estava indo para um clube maior” ao deixar o Liverpool, Fernando Torres era tido como um dos centroavantes mais competentes do futebol mundial. Poucos sabiam fazer gol como ele, poucos eram tão versáteis, habilidosos e técnicos. Ao exibir uma etiqueta de preço de 50 milhões de euros, o atleta também precisou encarar um caminhão de cobranças.

Se só o valor já era exagerado e ele vinha de duas lesões sérias, todos os holofotes se viraram para um dos homens mais caros da história do futebol. E ele estava à altura de corresponder todas as expectativas? Não. A verdade é que Torres não precisava provar muita coisa. Autor do gol do título da Espanha na Eurocopa em 2008 e campeão do mundo em 2010 (apesar da atuação discreta na África do Sul, já depois de uma das suas lesões), o espanhol entrou numa crise e ficou quase seis meses sem marcar depois de desembarcar em Londres.

Tudo isso você já sabe. Quando ele virou uma piada e todos começaram a contestar se ele era mesmo craque, levando em conta apenas o apresentado no Chelsea, ganhou os contornos de farsa. Mas como é que alguém joga em alto nível por cerca de cinco anos, ganhando esses títulos, para de repente virar um cara comum? Tão logo, Torres desembestou a fazer gols decisivos na Liga dos Campeões e depois na Liga Europa, a maldição parece ter deixado o camisa 9 em paz.

E convenhamos: já vimos farsas e elas não duram tanto. Ninguém desaprende a fazer gol e muito menos vive mais de cinco anos apenas indo às redes por sorte. Por mais que contestem a tese da má fase se estender por quase dois anos, é difícil imaginar que um jogador também decida jogos importantes sem ter a mínima noção do que está fazendo.

Em todo caso, os dois últimos títulos europeus dos Blues vieram graças ao maior motivo de piada dos últimos anos em Stamford Bridge. Mesmo sem desfrutar do prestígio que costumava ter nos seus tempos de Liverpool, Torres está reencontrando o caminho do gol. E olha que ele passou bem longe da meta por muito tempo, perdendo chances que até eu e você guardaríamos nas redes. Caindo na brincadeira, o SB Nation tem uma tese simplesmente fantástica para o sumiço do bom futebol de Torres, inventando que ele havia trocado de lugar com seu irmão gêmeo.

Se Fernando não consegue mais chegar ao patamar que alcançou quando mais jovem, é outra história. Não seria a primeira vez que algum jogador desse calibre perde parte de seu potencial em virtude de lesões ou problemas psicológicos. O que também não quer dizer que ele seria melhor que Ronaldo, Bergkamp ou Butragueño se não tivesse atravessado o mesmo duro caminho.

Quem resumiu bem a questão neste ano foi o amigo Felipe Lobo, que lançou a famosa “Torres: estamos sendo justos com ele?” Era mesmo fácil (e divertido) criticar o espanhol pela seca e pelas caneladas. Complicado mesmo vai ser se ele recuperar a confiança e desandar a castigar os goleiros adversários. Como nunca ouviremos o “sempre defendi”, “sabia que era craque” e o “nunca duvidei do seu potencial”. Justo o bastante para quem não se diz vidente e nem gato-mestre da bola.

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