A guerra que não acabou

É ingênuo demais querer que as cicatrizes da guerra nos países ex-iugoslavos simplesmente desapareçam e seu povo se trate como se há vinte anos nada tivesse acontecido. Entretanto, as posturas de Sinisa Mihajlovic e Igor Stimac mostram que enquanto sua geração estiver viva, haverá animosidade.

Assim como outras histórias escritas com o mesmo sangue e as mesmas rixas políticas, étnicas e ideológicas, o caso de Sinisa Mihajlovic (técnico da seleção sérvia e filho de um bósnio e uma croata) e Igor Stimac (ex-técnico da seleção croata e rival declarado do ex-amigo Sinisa) é um legítimo caso não resolvido.

Se você está familiarizado com a triste separação de Vlade Divac e Drazen Petrovic, ex-jogadores de basquete que tomaram caminhos opostos após a independência da Croácia e a eclosão dos conflitos nos Bálcãs, provavelmente vai achar que os ícones da NBA ficaram apenas no campo emocional. Sinisa e Igor não. Eles ultrapassaram vários limites.

A bola pela arma

É uma tarefa ingrata pensar que um dia você é uma criança e anda sempre com os mesmos amigos, e que anos depois enxergue aquele mesmo amigo como uma ameaça ou um alvo a ser abatido. Obrigados a tomar uma posição nas questões que colocaram os Bálcãs em estado de guerra, Sinisa e Igor seguiram caminhos opostos. Mihajlovic tenta esconder, mas já teve um passado quase que inteiramente croata, além do próprio fato de ter vivido numa região que viria a ser reconhecida como parte da Croácia. Nativo de Vukovar, o atual treinador da Sérvia não teria muitos pontos favoráveis para defender a bandeira que agora defende. Escolheu se mudar para o lado sérvio da fronteira quando foi rejeitado (e chantageado) pelo treinador do Dinamo Zagreb, seu time de infância. A resposta? Jogar pela Vojvodina e depois pelo Estrela Vermelha, onde se consagrou.

Stimac tem um papel tão crucial nesta história quanto o próprio Mihajlovic. Os dois são um espelho negro do que foi a insanidade daquela guerra. Se odiaram (e provavelmente ainda se odeiam) por representarem com precisão a mesma figura, exceto pelo lado que defendem. Pois ora, dois líderes quase idênticos em choque, um duelo dos similares? Se engana quem crava que os dois desfrutam do mesmo prestígio de seu povo. Igor é uma pessoa extremamente religiosa que defende os valores da família acima de tudo, custe o que custar. Isso o fez assinar uma petição homofóbica contra o casamento gay na Croácia, numa atitude perigosamente radical. Sinisa, por sua vez, perde crédito com o seu povo conforme os anos passam.

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Mihajlovic e Stimac discutem em 1991

Preces violentas

Quando já inimigos, os dois passaram a destilar publicamente o ódio um pelo outro. Na decisão da Copa iugoslava de 1991, o Hajduk Split de Stimac venceu o Estrela Vermelha de Mihajlovic por 1 a 0, com destaque para o momento em que os dois ficaram cara a cara em campo. Naquele momento, Sinisa afirma que ouviu uma provocação inaceitável. “Peço todos os dias a Deus para que sua família seja morta”, bradou Igor, antes da ira do sérvio forjado causar a expulsão de ambos daquela final.

Nos idos de 2003, Stimac também usou uma arma letal contra o rival: sua própria origem. Em entrevista, comentou que Sinisa tinha todas as razões para nunca ser aceito pelo seu povo, já que era filho de bósnio e croata, católico (lembro que a Sérvia é quase que majoritariamente cristã ortodoxa) e foi criado numa região originalmente povoada pela Croácia. Não que ele tivesse sido esquecido por Mihajlovic em suas declarações. Aos olhos do sérvio, Igor poderia ser estrangulado com as suas mãos, caso isso fosse possível. Alinhado com Zeljko Raznatovic, o Arkan, Sinisa indiretamente apoiava os crimes de guerra praticados pelo líder do grupo paramilitar sérvio que fez milhares de vítimas naquela região.

Pedidos de paz negados

Veio de Mihajlovic um pedido de trégua na guerra psicológica travada com Igor. Em 2008, o sérvio ofereceu um tratado de paz com o ex-amigo por meio de uma garrafa de vinho. Stimac imediatamente negou, alegando que jamais dividiria a mesa com ele e que não queria mais nenhuma forma de contato.

O reencontro era inevitável. Técnicos das suas seleções, se enfrentaram duas vezes em 2013, pelas Eliminatórias europeias, sendo uma em Zagreb e outra em Belgrado. Para a satisfação de Stimac, a Croácia venceu em casa e empatou fora, eliminando as chances da Sérvia se classificar para a Copa de 2014. Antes do duelo de março, Sinisa declarou que os tempos de guerra ficariam para trás. O que não foi respeitado pela torcida croata, que gritava “morte aos sérvios” nas bancadas. Em Belgrado, não foi diferente. Ao som de vaias ao hino e gritos igualmente ferozes contra a Croácia, os donos da casa devolveram o clima opressor aos rivais axadrezados.

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Croácia x Sérvia, durante partida em Zagreb, em março de 2013. Vitória da Croácia por 2 a 0

Amor à pátria

Depois de tudo isso aí, o que torna Stimac e Mihajlovic tão semelhantes, afinal? Primeiro, a conduta quase militar no comando dos times. É como se as seleções fossem braços do exército, em que cada jogador é um soldado e deve dar seu sangue, seus músculos e ossos em nome da vitória.

O amigo leitor deve se lembrar que em 2012, Mihajlovic barrou Adem Ljajic por não cantar o hino nacional em um amistoso. O atacante explicou a polêmica justificando sua origem bósnia e cultura muçulmana. A letra do hino exalta o povo sérvio, o que claramente gerou uma contradição para Adem. Pelo sim e pelo não, ele optou em não cantar e causou a ira do treinador. Outro episódio polêmico foi quando Branislav Ivanovic, o capitão, resolveu se opor ao manifesto de Sinisa que tentava impor várias regras a quem fosse convocado. Entre elas, aplaudir o hino do adversário. Mihajlovic se ofendeu e disse que se o defensor do Chelsea achasse mesmo algo estúpido, não precisava estar em campo. Contrariado, Ivanovic retirou sua objeção e continua até hoje como titular.

A Sérvia foi eliminada muito cedo da disputa por uma vaga na Copa e a campanha é contestada pela mídia local, que afirma como causa principal a ausência de critérios por parte de Mihajlovic. Não bastasse apenas isso, ele leva disputas pessoais para o trabalho, além de ser acusado de escalar jogadores por pedido de empresários. (Alô, Mano!) Difícil ter sucesso debaixo de tantas polêmicas. Ele não será mais o comandante a partir de 2014.

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Stimac dá treino na Croácia em 2013

Exército de um homem só

Para a Croácia, que brigou até onde pôde contra a Bélgica por uma vaga direta, a repescagem não parece tão temível assim. A caminhada foi boa no geral, mas desandou no fim, com duas derrotas consecutivas para os belgas e escoceses, nesta semana. Essa leve derrocada custou caro a Stimac, que parece não ter cumprido sua missão como líder e foi demitido do cargo, nesta terça. Seu substituto será Niko Kovac, ex-meia da seleção croata.

Admitindo que falhou como elemento motivador e que mesmo com um grande time em mãos ainda gera certa consternação na Croácia, Igor foi uma baixa inesperada nessa guerra particular travada com Sinisa. Seu maior erro foi destruir lentamente o espírito de união no elenco croata em nome dessa batalha pelo reconhecimento. Modric, Mandzukic e Jelavic são muito mais do que uma formação engessada de um técnico antiquado.

Não sobrou muita coisa para nenhum dos dois, que jogaram uma grande chance no lixo por convicções pessoais. Quem sabe a guerra já tenha mesmo passado para todo o restante da população dos dois países. Na cabeça de Sinisa e Igor, ainda há pelo que lutar, até que chegue o fim da linha. Uma luta que não terá vencedor.

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