Crianças, em 2013…

Meninos, eu sei que o ano de 2013 no futebol parece incompreensível o suficiente pra que vocês levem a sério e acreditem nessa história que eu vou contar, mas olha só: juro que é verdade.

Quando o seu avô era um menino e foi morar uns meses no interior, o Brasileirão estava no final. Eu estou falando do ano de 2013. Naquele ano, meus queridos, o negócio foi bizarro e a gente pensava que todo mundo na Série A ia cair. “Vovô, você tá exagerando, como pode, não caem só quatro?” Pois é, meninos, mas a cobra fumou um charuto cubano naquele campeonato.

Como vocês devem saber, o Palmeiras não estava disputando a Série A. E todo ano que o Palmeiras não disputa a Série A, coisas malucas acontecem, como a mudança para os pontos corridos e na segunda vez, um quase quase quase bem longe mas ainda quase título do Botafogo. Vocês não devem lembrar, mas nessas duas vezes, o Cruzeiro levantou a taça. Mas isso não é o capítulo mais problemático e difícil de digerir naquela edição. Imaginem só vocês que todos os clubes paulistas estiveram em determinado ponto ameaçados pelo rebaixamento.
-Como assim, vô?
Como é que eu vou explicar isso? Ah, tá, então, em pelo menos três rodadas, todo mundo que jogou, perdeu.

-Vô, conta outra, vai.

Deve ter sido isso, não sei. Foi 2013, crianças, nada naquele ano foi normal. Vocês precisam entender que…

-VÔOOOO!

Vou começar por onde? O Corinthians chegou com a pompa de campeão mundial, levou o Paulista e depois foi só sofrimento. Depois que saiu aquele menino, o Jorginho… era Jorginho mesmo? Não. Pedrinho, isso. Quando o Pedrinho foi para um clube inglês, o time desandou a maionese e entrou numa série desanimadora de empates e derrotas difíceis de explicar, como aquele 4 a 0 para a Portuguesa. Todos reconheciam que o time perdeu a motivação e a chegada sem o Paulinho. AAAH, era Paulinho mesmo o nome dele. Jogando uma bola minúscula contra todo mundo, o Corinthians aguentou até o fim com o Tite no comando. E chorou. Até hoje eles ainda discutem o que diabos aconteceu pra entrar naquele caos.

Quem tinha menos o que perder, mas ainda sim perdeu, foi o São Paulo, que amargou uma série de 14 jogos sem vencer, inclusive fazendo uma excursão até a Europa e Ásia, onde enfrentou Bayern, Milan, Benfica e Kashima Antlers. Nesse ponto as coisas ainda não estavam dramáticas no Brasileirão. Só melhorou com a chegada de Muricy, o que até deu uma animadinha nos caras. Lembra aquele goleiro deles que jogou quase 30 anos como titular? Então, ele chegou a perder quatro pênaltis em sequência, era um dos sinais mais claros de que cairia para a B. Imagina só se o maior ídolo afundasse o seu clube. Aconteceu. Time apático, jogos com grande dose de azar, derrotas bizarras. E no fim, vocês sabem. Deu a maior merda. Engraçado foi ouvir eles cantando que “nunca foram rebaixados”, aquela coisa bem arrogante.

O Fluminense também passou vergonha logo no ano seguinte ao seu quarto título nacional. Começou com o elenco se desentendendo com Abel, tomando gol muito fácil em clássico contra o Vasco, depois trocando pelo Luxemburgo. Já no momento em que o Luxa foi contratado, cravaram que o Flu iria para a B, pagar aquela dívida de 2000, quando subiu do nada pra disputar a Copa João Havelange. Todo mundo dizia PAGUE A SÉRIE B PAGUE A SÉRIE B PAGUE A SÉRIE B e de repente o grito tomou tanta força que eles foram mesmo rebaixados. Foi a primeira vez que um campeão caiu no ano seguinte a um título no Brasileirão.

Quem também amargou novo rebaixamento foi o Vasco de Roberto Dinamite, o único presidente de clubes grandes que foi duas vezes pra B, uma em 2007 e outra em 2013. O ano começou mal pro Vascão, devendo até a conta da água. Claro que não tinha como acabar bem. As trombetas do apocalipse soaram quando Dinamite discursava dizendo que estava tudo ótimo, que o clube iria sair dessa. Muitas derrotas sofridas, outras merecidas, mas todas derrotas. Quando o pessoal da Colina entrou na zona da degola, ficou difícil se safar. Sabe aquele papo do maior ídolo do clube afundar a instituição? Então, mesma coisa.

Lembram do Alex, aquele que jogou no Palmeiras, foi campeão no Cruzeiro, passeou na Europa, foi craque na Turquia e depois voltou para o Coritiba? Então, ele chegou a conduzir o Coxa até a liderança do Brasileiro. O time voava, ficou um tantão de jogos sem perder, parecia pronto. Até que uma série de lesões estragou o elenco, que foi enfraquecendo, enfraquecendo, até que não conseguia mais ganhar. Demitiram o treinador e tudo mais, aí azedou o abacaxi. Não voltaram ao normal e, bem, vocês sabem. Houve choro.

Chegamos ao cenário trágico de que o sexto colocado, o Vitória, estava com apenas oito pontos de vantagem para o primeiro time na zona de rebaixamento, o Criciúma, com 32. A coisa tava tão louca, que ou você brigava pela Libertadores, ou para se manter na Série A. Lá em 2012, quando o Palmeiras caiu pela segunda vez e ouviu novamente as piadinhas (com muito merecimento), a gente não imaginava que seria a torcida mais tranquila no país pouco tempo depois. Por um lado, ficar de fora da linda festa da elite não foi lá uma desgraça tão grande. A gente garantiu logo o acesso e só ficou rindo de todo mundo, como há muito não fazíamos.

Agora vão lá jantar, porque a vó de vocês já tá esperando. Outro dia o vô conta outras histórias. Como a de quando o Atlético Mineiro foi o campeão óbvio mais surpreendente na Libertadores, quando a Chapecoense levou um Brasileirão no seu primeiro ano jogando a Série A e quando o Brasil perdeu outra Copa do Mundo jogando em casa. O vô vai ler um livro e tirar uma soneca.

– Mas vô, você contou cinco histórias de rebaixados. Não eram só quatro que caíam?

Olha só, criançada, eu já tô meio velho pra lembrar quem caiu ou não. Só lembro que tava um punhado de gente na beira do precipício. Se não me engano a CBF rebaixou 10 só pela incompetência do pessoal. Juro pra vocês que não sei precisar quem foi não. Tô em dúvida entre pelo menos uns 16, viu?

– Mas vôooo!

Eu só lembro que deu o maior problema…

1 pensamento em “Crianças, em 2013…”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *