O rito de passagem de Franz Beckenbauer

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Em 1980, Franz Beckenbauer já não tinha mais o que provar no futebol. Vencedor de todos os títulos possíveis pela seleção alemã e pelo Bayern de Munique, o líbero havia adquirido respeito suficiente para ser chamado apenas por Der Kaiser (“o imperador”) por quem o visse nas ruas do lado capitalista do país germânico.

Aos 35 anos, o velho líbero, porém, andava meio entediado com a sua vida mansa no New York Cosmos, dos Estados Unidos – que mais se assemelhava ao ofício de professor do que de atleta. Sentia saudades das ligas competitivas e, por isso, não hesitou ao aceitar o convite do Hamburgo, campeão naquele ano da Bundesliga, para voltar à sua terra. Na mala, o Kaiser levava três objetivos muito claros: recuperar a forma física, ser novamente campeão da Liga dos Campeões da Europa e voltar à seleção alemã. Como não era do seu costume, Beckenbauer, o campeão de tudo, fracassou em todos eles.

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Franz com a camisa do Hamburgo: título alemão em 1982 foi visto do banco de reservas

Beckenbauer foi traído pelo joelho. A idade e a medicina pouco avançada da época também jogaram duro contra um dos defensores mais técnicos e leais da história. Mesmo atuando mais à frente, sem a necessidade de aparecer em todos os setores do campo como em seus tempos áureos de líbero, der Kaiser não conseguiu ter sequência como titular (a título de comparação: no futebol praticamente amador dos Estados Unidos da época, jogando assim, Der Kaiser foi responsável por 47 assistências e 19 gols pelo Cosmos de 1977 a 1980). Conquistou o seu último título da carreira, a Bundesliga de 1981-1982, praticamente como expectador, sentado ora no banco de reservas, ora no departamento médico.

Voltou para o Cosmos no ano seguinte, resignado a encerrar a carreira em pouco tempo. De Nova York, em 1983, assistiu aos seus colegas de Hamburgo, liderados pelo meio-campista Felix Magath (hoje, treinador conhecido pelos seus métodos militares – o meia Diego que o diga), baterem a Juventus de Dino Zoff na final por 1 a 0, conquistando o primeiro e único título da Liga dos Campeões da Europa do clube. Despediu-se do futebol no fim daquele ano, antes do time alemão ser derrotado por 2 a 1 pelo Grêmio de Renato Portaluppi no Mundial Interclubes.

Sozinho em Nova York

Hoje, Beckenbauer acredita que errou ao transferir-se para o Cosmos em 1977, aos 32 anos. “No que diz respeito ao futebol, foi um fracasso”, disse ao site oficial da Fifa em entrevista. Quando aceitou o convite dos americanos, der Kaiser havia acabado de ser eleito o melhor jogador europeu pela France Football e melhor do mundo pela World Soccer. Seduzido pelo alto salário e pelo desafio de tornar o seu esporte popular no país do Tio Sam, o líbero se uniu a Pelé e Carlos Alberto Torres e foi campeão nacional assim que chegou.

A ida para os Estados Unidos, no entanto, desagradou o técnico da seleção alemã Helmut Schön, que concluiu que o líbero havia desistido do futebol profissional. Beckenbauer acabou fora da Copa de 1978, e os seus compatriotas foram eliminados na fase de grupos da segunda fase. Muitos alemães supõem que a campanha teria sido diferente com uma referência como Der Kaiser dentro de campo (o atacante Rummenigge, então com 23 anos, teve de assumir a responsabilidade).

Soccer - NASL - New York Cosmos

Depois de ficar de fora do Mundial, Beckenbauer entraria de vez no pior momento da sua vida. Com a aposentadoria definitiva de Pelé em 1977, os estádios norte-americanos perderam público. A torcida, como o alemão contou ao repórter John Vinocuor, do New York Times, em 1981, não se entusiasmava com o futebol solidário do maior jogador alemão de todos os tempos.

“Pelé era um solista, o melhor jogador de todos os tempos. Eu sempre fui um jogador de equipe, o cara que coloca os outros em posição para marcar. Eu tenho uma função em campo, Pelé tem outra. Mas é difícil para os americanos entenderem isso. Eles não conseguiam se empolgar com um passe que eu dava, uma invertida de jogo. Eles queriam o cara que driblava quatro jogadores e fazia o gol de volta”, contou na matéria “Beckenbauer’s Life Back in Europe”, publicada em 12 de abril de 1981, quando ainda buscava espaço no Hamburgo.

Beckenbauer só não voltou para a Alemanha em 1978 por causa de um divórcio. O jogador havia acabado de se separar da sua primeira esposa, Brigitte Beckenbauer, e não queria ter de responder às perguntas dos repórteres sobre o término do relacionamento. Preferiu ficar nos Estados Unidos, onde era quase um anônimo nas ruas e um completo infeliz dentro de estádios com menos de 10 mil pessoas. Ainda ganhou os campeonatos nacionais de 1978 e 1980 pelos Cosmos, antes de voltar à Alemanha e perceber que o seu tempo como jogador já havia passado.

Terno e gravata: os trajes da retomada

Beckenbauer treinador

Bastou Beckenbauer encerrar a carreira para a sua vida voltar aos trilhos. Um ano depois da aposentadoria, mesmo sem nenhuma experiência como treinador de futebol, assumiu a Alemanha Ocidental após o fracasso de Jupp Derwall na Eurocopa de 1984, quando a seleção foi eliminada ainda na fase de grupos. Der Kaiser classificou a equipe para a Copa do México e não venceu porque esbarrou na Argentina de um gênio chamado Maradona na final. No Mundial seguinte, conquistou o título de forma invicta e igualou o feito de Zagallo – somente os dois conquistaram a taça mais importante do futebol como jogador e técnico.

Ainda treinou o Olympique de Marselha de 1990 e 1991 e o Bayern de Munique, de 1994 a 1996, quando sagrou-se campeão como treinador pela última vez, na Copa UEFA daquele ano que seria o de despedida. Depois, virou presidente do Bayern (hoje no posto honorário) e ainda foi responsável pelo Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2006, realizada na Alemanha, reconhecida pela sua boa organização.

Como sempre foi desde os tempos de atleta, Beckenbauer, atualmente, é um nome ligado à excelência. Der Kaiser ganhou tudo o que disputou – e até quando não conseguia mais e precisou sair de campo, saiu vencedor. Deve ser por isso que os seis anos do rito de passagem no Cosmos e no Hamburgo de tenham sido esquecidos. Esta é só a história de um líbero que não queria sair de um jogo que já havia ganho.

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