Ele teve uma vida esportiva muito saudável

“Do Fedato? O zagueiro?!” “Sim! Haha!” “Eu não acredito. Não pode ser verdade. É sério mesmo que você é filha dele?” “Não, sou neta. Qualquer dia eu te levo pra conhecer o vô”. Este foi um dos meus primeiros diálogos com a Fernanda. Através dela, da namorada Maisa, do cunhado Marcelo, da sogra Maria e da afilhada Lorenza, eu tive o privilégio de encontrar Aroldo Fedato, o maior jogador de futebol da história do estado do Paraná. “Oi! Tudo bem, tudo legal?” foi a primeira saudação, e também a mais comum. Sempre, sempre acompanhado de um abraço. E o largo sorriso, grande marca de Fedato (não, não era a técnica como zagueiro, era o sorriso sim).

Naquele 2008, fui apresentado à família Fedatto. Desde então, me sinto parte dela, bem como outras magníficas pessoas que marcam presença constantemente nos eventos. Explicar isso não é difícil: os Fedatto são, de uma maneira bastante particular, incrivelmente carinhosos e afáveis (filhos de peixe, por certo). A minha admiração pelo lendário jogador foi respeitada por toda a casa desde nossos primeiros dias. E foi neste mesmo 2008 que tirei minha primeira foto com ele, no primeiro aniversário da Lorenza, pouco antes de começar a festinha. Foto que ostento com orgulho por saber, já no momento do flash, como ela representava bem as minhas paixões.

Foi em 2009 que tive uma noção maior do respeito da família à minha admiração pelo Estampilla Rubia. Um grupo de alunos da Universidade Positivo construía um material sobre grandes nomes do futebol paranaense. A entrevista seria no Mossunguê, mas ninguém da família poderia acompanhar o estudante que viria buscar Fedato. Confiaram a mim – recém-chegado, não mais que candidato a amigo – a tarefa de cuidar dos passos dele na jornada. Desde o cumprimento até o retorno pra casa, um banho de história. Entre os vários relatos, Fedato deu detalhes do fim da carreira, quando atuou como jogador e contador do clube ao mesmo tempo por 2 anos.

O tempo de convivência me permitiu, mais ou menos em 2010, a ousadia de também me referir a Fedato como “vô Aroldo”. Nos vários eventos na casa dos Fedatto, com gente passeando pela casa por aqui e por ali, vô Aroldo era, pra mim, sempre Fedato. Inúmeras vezes, após o almoço, um silêncio se instalava na mesa. Silêncio que precedia um “Eu tive uma vida esportiva muito saudável…”. Frase que eu encarava como “te prepara pra mais história”. Não via o tempo passar ouvindo detalhes de jogos, sendo apresentado ao seu museu particular, conhecendo as histórias do prêmio Belfort Duarte e a Diretoria Social que assumiu no Coritiba (suas histórias favoritas) e até escutando relatos de gol marcado – foi ele quem primeiro me contou que o Estampilla havia sim balançado as redes. E me encantava a elegância com que ele saía de situações embaraçosas: não deixava nada sem responder, não era incoerente e não desrespeitava nenhum gosto. Uma habilidade que nunca vi em nenhum outro ser humano.

Nunca deixei de ler sobre sua carreira, mas sabia que nenhuma história sobre Fedato seria melhor que as que o vô Aroldo me contou. Em 2011, me levou às lágrimas escalando o time de 47/48, que tinha uma música particular. Ele lembrou de cabeça, pedi pra repetir em outras oportunidades. Transcrevo a letra:

“Mas que defesa, Nivaldo, Fedato e Renê
Linha de halfs, Tonico, Cartola e Sanford
Linha de ataque já nem sei o que digo
Babi, Merlin, Cesar Frizzo, Toni e Paulinho
Que perigo!
São jogadores de fato
No campo são desacato
Campeões da disciplina
Turma que a todos fascina
Pela maneira distina
Que jogam pra torcida
Elementos que dão vida a qualquer partida”.

O reconhecimento que Fedato teve de todos os que ouviram seu nome foi sempre tão imenso quanto justo. E assim também o foi no livro “Eternos Campeões”, lançado em 2012, que conta a história de várias lendas do Coritiba. Seis páginas estão dedicadas a Fedato. O dia do lançamento do livro foi, possivelmente, o auge da minha história de torcedor. Mais uma vez, acompanhei o vô Aroldo, incluindo carona e mais de 2 horas de autógrafos. E isso na presença de muitos outros nomes que permeiam os mais de 100 anos de história do clube. Aliás, que são a história do clube. E vários ali renderam suas homenagens ao grande Fedato. Almir, Célio, o filho de Breyer, a filha de Carazzai, Alex, Renê Webber. Fedato era um ícone, e isso se materializou diante dos meus olhos naquele dia.

A pequena Lorenza, que carrega Martins e Fedatto no sobrenome, não podia ser menos formidável. Já elogiei e ainda vou elogiar muito nessa vida. Neste 2013, recebeu um presente digno da princesa que é: uma viagem à Disney. Iriam todos, mas o vô Aroldo precisaria ficar. “Você pode ajudar a gente, Dedé? A gente precisa que alguém fique com o vô.” Veja se isso é pergunta que se faça. Eu e o Leo, amigo da Fernanda, fomos a família dele naqueles dias. Resolvemos jogar dominó. E era difícil ganhar do homem. Se não me engano, foram 4 vitórias dele, 1 minha e 1 do Leo em seis partidas. Até nisso ele era bom. E, nestes dias, contando histórias, cantei junto dele aquela música do time, que fiz questão de decorar. Foi a única vez que vi seus olhos marejados. Depois disso, ainda recebi imensuráveis presentes do Fedatinho e da Fernanda: um pequeno batuque, assinado por todos os jogadores de 53, usado nas festas do vestiário, onde Fedato era o “crooner” (o cantor da banda); e duas bolas de capotão, uma assinada pela seleção paranaense de 1957, e outra do mesmo ano, assinada só por ele, utilizada na final do estadual (esta, com doses extras de emoção, foi-me entregue no meu aniversário, 5 dias atrás). Ressalte-se que, na época, não havia várias bolas com os gandulas, e sim apenas a bola do jogo.

É verdade que eu disse que Alex e Kruger são ídolos, mas Fedato era “muito mais”. Não é nenhum demérito aos dois, pois não chamo de ídolo alguém de quem duvido do caráter. Porém, só com Fedato tive a oportunidade de confirmar tudo. Foram 6 anos de convivência, menos da metade do tempo em que ele foi capitão do Coritiba. E este tempo me permite discordar em um ponto que Carneiro Neto coloca: Fedato não se tornou maior do que seus feitos. O personagem está à altura de quem ele foi. Talvez por isso o presente de um dia de sol e temperatura amena no dia de sua despedida. “Um ótimo dia para a prática esportiva”, como repetiu para mim em tantos dias como este 10 de setembro.

Há cerca de 4 anos que tento escrever este texto. Queria que ficasse perfeito, que fosse o melhor que já escrevi, era minha promessa particular. Mas não encontrava a definição perfeita. Fico feliz que Paulo Krauss, que tenho certeza que divide esta carga de sentimento comigo, o tenha feito. Sendo assim, empresto o final do texto de Krauss para o meu, sem cerimônia, simplesmente pela precisão da descrição: “O Fedato jogador, perdemos em 1958, quando ele parou de atuar. O das lojas saiu de cena em 2002, com a aposentadoria do empresário. O Fedato que nos deixa agora, para mim, era o mais importante. Perdemos o Gentleman, como até os adversários o chamavam nos tempos de jogador. Aroldo Fedato era educado, amoroso, muito elegante, mas uma pessoa humilde, que cumprimentava com a mesma simpatia o porteiro ou o dono do prédio. O Paraná perde um dos maiores cavalheiros que já teve”

Assina um sortudo e agradecido admirador, neto e órfão. Que Deus o acolha com muito amor.

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