Sobre caráter e títulos

Desde criança, você ouve a zoação dos amiguinhos e os discursos muitas vezes de consolo dos pais, tios e avós em relação ao seu time, se ele não disputa títulos ao fim do ano ou sempre é aquele que morre na praia.

Você cresce com as porradas, esses pequenos tapas na orelha que a vida te dá. Uma derrota aqui, outra ali, de repente se acostuma a começar todo santo ano sem a mínima esperança de que as coisas mudem. O pessimismo vence o otimismo na sua guerra interior e de repente você passa a enxergar o seu time como aquele gigante adormecido, se muito.

Se engana com as perspectivas de que um ou outro jogador podem levá-lo de volta ao caminho das glórias. Mas eles provam ser tão canalhas quanto os demais no momento em que saem do clube em busca de algo melhor. Aceite, seu time não será melhor por causa de um ou dois, mas sim por reconhecer suas tradições e lutar até o fim por elas. Isso é grandeza, não um punhado de jogadores motivados por dinheiro.

A redenção é sim uma motivação muito maior do que o vil metal. Desde os tempos do guaraná com rolha se sabe que quem não tem nada a perder costuma encarar a derrota com muito menos dor e amargura do que quem apostou todo seu dinheiro nisso. Quem também coloca a honra em jogo é quem dá mais valor, ainda que seja realmente difícil em tempos como estes esperar que ela seja uma das fichas na mesa.

Dizem que você forma caráter enquanto perde e aprende com cada derrota suada, chorada ou vergonhosa. Deixe-me dizer uma coisa: desde quando perder com frequência te torna uma pessoa melhor ou mais preparada pras armadilhas da vida.

Se formei caráter ou aprendi a valorizar as poucas vitórias, pouco importa. Para as favas com esses ensinamentos, torcedor nenhum enche barriga com lição de moral. Torcer está na alma, é uma prova de amor, de paixão e acima de tudo de fidelidade. Ou você vai dizer que se estivesse num casamento, iria se satisfazer só de ouvir da sua mulher que você é um bom marido? Aposto que você também vai querer títulos, gritar que é campeão e gozar dessa maravilha que é derrotar todo mundo até o jogo final, pulando de forma ensandecida quando o juiz apita o fim.

O momento mais especial da conquista é justamente o momento em que ela se concretiza e compensa toda aquela emoção e tensão que vieram desde as quartas ou oitavas de final. Se dizem que ser campeão frequentemente transforma as pessoas em seres arrogantes, talvez seja apenas uma reação comum a quem só vê de longe o vizinho levantar a taça.

A vida é curta demais pra ser honroso e vivê-la como perdedor. Quero poder ter novos títulos e histórias pra contar aos meus filhos e netos, não só aquela noite que eu já tenho dificuldade pra lembrar como é que chegamos ao ponto de levantar uma taça diante da nossa torcida. Quero que o salão nobre da minha memória também esteja repleto de outras taças. Sejam elas de ouro, de prata ou de carne e osso.

Ganhar de vez em quando faz bem e certamente não vai transformar eu e você em canalhas. Ou talvez esse seja só mais um texto de alguém que está com o coração cansado de tanto perder e aprender uma lição lida e relida até a exaustão.

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