Um sucessor digníssimo para o Aranha Negra

Dasaev é tido por muitos como o goleiro mais fantástico da década de 1980: duas vezes campeão soviético pelo Spartak Moscou e melhor goleiro do mundo em 1988, ele teve seu auge no mesmo ano em que a URSS perdeu a Eurocopa para a Holanda de Van Basten.

Não falamos tanto assim de goleiros aqui na Total Football. Não é que não sejamos fãs dos homens que se esborracham e cansam de levar boladas para evitar que seus times levem gols. É que a história costuma ser bem cruel com quem escolhe esse ofício no futebol. E o craque retratado nesse texto é herdeiro daquele que foi o maior de todos na posição.

Se Lev Yashin foi o maior pegador de pênaltis e o grande paredão dos anos 50 e 60, quando a bola pesava muito mais do que hoje, Rinat Dasaev é sim o legítimo sucessor do Aranha negra no gol da URSS. Presente em três Copas do Mundo pelo seu país, teve seu auge no ano de 1988, quando a Holanda de Van Basten bateu o seu país na final da Eurocopa. Nem a derrota tirou o prestígio do “Cortina de Ferro”.

Rinat foi revelado pelo Volgar Astrakhan, de sua cidade natal, em 1976. Disputava a segunda divisão soviética quando depois de apenas 26 partidas. O seu senso de posicionamento e agilidade despertaram o interesse do Spartak Moscou, então o grande time da União Soviética. Um ano depois já era o titular da equipe moscovita, onde ganhou notoriedade como um dos mais seguros arqueiros da Europa.

O surgimento de uma lenda

O mundo ouviria falar de seu talento nos Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou. Jogando no seu quintal, Dasaev mostrou seu cartão de visitas e ganhou a medalha de bronze em cima da Iugoslávia. Só sairia do gol da URSS após a Copa de 1990, dez anos depois. Quando dizemos que ele era o goleiro de 9 em 10 listas de melhor time dos anos 80, não é exagero. E ele tivesse grandes rivais naquele tempo: Harald Schumacher, Jean-Marie Pfaff, Walter Zenga e Hans van Breukelen, por exemplo, foram gigantes debaixo das traves, mas ainda muito atrás de Rinat.

Poderia dizer que teve mais sucesso em competições internacionais se o time da URSS fosse mais competitivo. Não adiantava nada ter um goleiraço se a defesa e o meio-campo não ajudassem. Uma prova disso foi a eliminação ainda na primeira fase das Copas de 82 e 90, a derrota nas oitavas em 86. Quando chegou longe de fato, perdeu para uma Holanda irresistível, na Eurocopa.

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Dasaev recebe o prêmio de maior goleiro do ano de 1988 pela IFFHS (Foto: My football facts)

Às vezes a glória pessoal não é suficiente

Ao receber o prêmio de melhor goleiro de 1988, Dasaev ganhava apenas um consolo para a derrota mais doída de sua carreira. Quando premiado pela IFFHS, o soviético era reconhecido tardiamente pelos serviços prestados desde 1976.

Meses antes, na Eurocopa, contribuiu para a campanha honrosa da URSS que sofreu apenas quatro gols em cinco jogos, mas que sucumbiu a uma geração simplesmente fantástica da Holanda.

Não bastasse o retorno do mestre do futebol total, Rinus Michels, a Laranja mecânica tinha Ronald Koeman, Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco van Basten. E isso foi mais do que a valente URSS poderia suportar na decisão. No Olimpico de Munique, 2-0 no placar para os holandeses, uma revanche esperada desde a primeira fase, quando os soviéticos venceram por 1-0 com grandessíssima atuação de Dasaev.

Do outro lado naquela final, outro goleiro que merecia qualquer elogio: van Breukelen salvou a Holanda em algumas boas descidas, quando os atacantes da URSS conseguiam furar o bloqueio e arrematar ao gol. Dasaev viria a reclamar do posicionamento de seus zagueiros quando Gullit cabeceou sozinho no primeiro tempo para abrir o placar. Van Basten marcou o segundo, não havia muito o que fazer. Um cruzamento lá do outro lado terminou num voleio inesperado e por consequência um dos gols mais bonitos da história do futebol.

Coube a um dos maiores goleiros daquele tempo aceitar a sua impotência diante de um lance de puro talento. Não se pode dizer que foi uma falha, longe disso. Aposentado em 1991 pelo Sevilla, time que o contratou após o seu melhor ano, Dasaev pode ficar tranquilo que o seu posto de sucessor de Yashin estará seguro por um bom tempo. Verdade que Igor Akinfeev é acima da média, mas nada que vá passar perto de desbancar o Cortina de Ferro.

Anos depois, alguém deverá lembrar daquela URSS como a “URSS de Dasaev”, em fenômeno semelhante ao time que foi campeão europeu em 64, com o Aranha negra agarrando até pensamento.

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