Adriano persiste e se redime na Chapecoense

O Imperador volta à ação pela Chapecoense e brilha na Série B em ausência do artilheiro Bruno Rangel: catarinenses sobem para a primeira divisão com a marca do artilheiro que esteve escondido atrás dos problemas com álcool e mau comportamento.

Adriano se cansou de ser apontado como craque desperdiçado. Dois anos depois de ganhar o Brasileirão pelo Corinthians, o atacante falhou em testes no Inter e foi até flagrado dormindo de calça jeans na praia. E não venha com moralismo, que se você estivesse de folga, provavelmente não teria feito diferente.

O ex-fenômeno da Inter foi de Imperador a bobo da corte, inclusive até achamos que esse clichê já ficou meio desgastado. Desmoralizado e apontado por todos como derrotado, Adriano se reergueu após os fiascos e resolveu entrar numa dieta radical. Primeiro passou a cortar carboidratos, parou de tomar cerveja e constantemente era visto no Rio em restaurantes vegetarianos. Virou adepto do budismo e sua rotina era mais tranquila que tirar um cochilo assistindo a um VT de golfe numa tarde de domingo.

Com 20 quilos a menos, o atacante usou o CT do Flamengo para retomar a forma e nesse intervalo foi cogitado em pelo menos três clubes da Série A. A imprensa tornava a repetir que ele era um caso perdido, provou por a+b que não tinha salvação. Em setembro, recebeu um convite da Chapecoense para fazer um teste sem compromisso. Se houvesse a mínima chance de acerto, seria bom para o atleta e para o clube, que ganharia mais projeção. No G4 da Série B, o Verdão de Chapecó queria só uma cereja do bolo, uma experiência internacional. Adriano vislumbrou a chance de redenção e se empenhou como nunca.

Treinava três horas por dia, chegava ao clube de lambreta e sempre com uma lancheira onde trazia sanduíches naturais. Uma semana depois, foi relacionado para ficar no banco contra o São Caetano, na Arena Índio Condá. Aos 33 do segundo tempo, o técnico Gilmar Dal Pozzo chamou o atacante, com a camisa 80. Ele chutou uma bola na trave e perdeu dois gols, sem ritmo de jogo. Mas virou presença constante como substituto nos 45 minutos finais.

Adriano abre as asas

O dia 1º de outubro marcou o primeiro voo de Adriano como titular. Bruno Rangel, artilheiro da equipe na temporada, se lesionou contra o Paysandu no fim de semana e não pôde enfrentar o ASA, novamente em Chapecó. Era a chance do renegado. E ele precisou de dois chutes para abrir o placar, com um balaço de fora da área e deixando o goleiro Gilson sem reação. 1-0. Num escanteio antes do intervalo, subiu mais alto que a marcação e cabeceou. Neném escorou e aumentou: 2-0.

Enquanto Rangel estava de molho, Dal Pozzo resolveu bancar Adriano e Tiago Luís (ele, o ex-novo Messi do Santos, que estava no Mirassol) entre os onze titulares e não se arrependeu. O Imperador voltou e emplacou sete gols contra Joinville, América Mineiro, Avaí, Ceará e Sport, sendo três deles contra o Avaí, em plena Ressacada. “ÔOO, O IMPERADOR VOLTOOOU, O IMPERADOR VOLTOU, O IMPERADOR VOLTOOOOOO-OOOU”, gritava a torcida da Chapecoense, em polvorosa com a hora e a vez de Adriano Leite Ribeiro, que agora se autodenominava “Adriano da Paz”.

Rangel se recuperou pouco antes do duelo contra o Paraná, quando a Chapecoense já estava quase garantindo o acesso. E aí o professor precisou quebrar a cabeça. A esta altura, Adriano iria realizar sua décima aparição pelo time catarinense e estava com oito gols. Gilmar pensou então em deixar cada um jogar 45 minutos. O ex-titular tinha 14 gols na Série B e piorou o dilema do treinador. Tudo isso à beira de subir para a elite, um feito inédito na ascensão incrível do Verdão do Oeste.

Meio tempo para cada um

Adriano tinha vantagem por estar em boa sequência e jogava o primeiro tempo. Rangel, que de Trajano (ver império romano) nada tinha, entraria no intervalo para atuar na etapa complementar. Contra o Paraná, 3 a 2 no placar, com um gol de Adriano e dois de Athos. Na rodada seguinte, diante do Bragantino, 2 a 0, um gol de Rangel e pênalti perdido de Adriano. O duelo estava empatado contra o Icasa no jogo do acesso. Gilmar sacou Tiago Luís e deixou os dois centroavantes como titulares para garantir a festa.

Fininho, o ex-Imperador e agora da paz cobrou uma falta com uma pancada violenta, no ângulo. 1-0. Bruno Rangel matou no peito um passe vindo de trás, ajeitou e bateu no canto: 2-0. A esta altura, o Verdão estava na Série A, mas Adriano não parou. Toda vez que tinha espaço, arriscava de fora da área. Acertou duas vezes a trave e fez outro gol. Rangel sumiu com a marcação dos cearenses e não tocou mais na bola. Restando 10 minutos no relógio, o placar era de 4 a 0.

Pollice verso

Elétrico e ouvindo seu nome gritado na arquibancada até pela torcida do Icasa, Adriano olhou para o alto e tinha uma falta para cobrar, próxima à meia-lua. Sentiu aquela inquietação de outrora e balançou a cabeça, como se quisesse evitar ser possuído por alguma força. Relembrou de suas batalhas sangrentas na Itália e pensou ter visto alguém atrás do gol abaixar o polegar, sinalizando para finalizar com os adversários. Pollice verso, Adriano correu para a bola e arrematou com uma força descomunal, furando a rede. 5 a 0, fim de papo e Chape na Série A.

Na festa da promoção, os atletas correram em direção a Adriano da paz com uma taça enorme de cerveja. Ele fez uma cara de assustado e paralisou, quando dois companheiros viraram sobre ele a taça. Logo ele se encarregou de beber do jeito certo, virando num só gole. Encharcado, saiu para a lateral e foi abordado por um repórter. “Adriano, você não tinha cortado a bebida?” “Cortei mesmo. Essa daqui é sem álcool”. E assim um novo homem nasceu em gramados cearenses. Um homem que sufocou seus monstros interiores e deixou a fraqueza para trás. Com um sorriso no rosto, o ex-Imperador se redimiu e no vestiário liderou a conversa do grupo.

O dia seguinte foi marcado por uma grande festa na Vila Cruzeiro. E todos os presentes beberam muito… refrigerante.

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