Bremner, o encrenqueiro

Billy Bremner é apontado por torcedores e pela imprensa inglesa como o grande nome do Leeds em toda a história; mas essa honraria foi conquistada com muito custo, títulos e sobretudo violência.

Não se pode questionar muito o mérito de Billy Bremner como capitão do maior time da história do Leeds. Bicampeão inglês e da Copa das Feiras, campeão da Copa da Inglaterra nos anos 70 e capitão de um time que foi temido em território nacional não só pela sua competência mas também pela rispidez, Billy era incansável em campo e tinha um espírito lutador. Lutador até demais.

O nanico de 1,65 se criou mesmo em Elland Road, onde em 1960 estreou como profissional. Meia armador e raivoso como um cão de rua, Billy tinha um preparo físico excelente, o que lhe permitia correr quase o dobro dos adversários. Muito técnico e brilhante carregando a bola, pecava por ser desleal, acumulando brigas em campo e exageraando na força quando entrava numa dividida. Quase sempre vencia, quase nunca em termos limpos.

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Retrato de 1966, quando Dave Mackay, volante do Derby, agarra Billy pela gola (Foto: Telegraph)

Líder do elenco que venceu a segunda divisão inglesa em 1964, o escocês Bremner era só combate e quando tinha espaço, chegava no ataque para driblar e finalizar. Logo de cara o Leeds se tornou um concorrente direto ao título nacional em 1965, perdendo o campeonato para o Manchester United e a Copa da Inglaterra para o Liverpool. Emergente, o clube começou um processo rápido e sangrento de ascensão.

Campeões sujos

Quem assistiu ao excelente filme “Maldito Futebol Clube”, que conta a história de Brian Clough no Leeds, deve relembrar a passagem em uma entrevista ao vivo do treinador antes de assumir o clube. Construindo sua reputação no Derby County anos antes, Clough costumava dizer que o Leeds dominou o cenário inglês usando de violência, e por isso sempre levava vantagem. Don Revie, ídolo de Brian na juventude, rebatia as críticas de seu sucessor em Elland Road com os fatos: abusivo ou não, os Whites eram o time a ser batido no país.

Bremner, que já era capitão desde 68, participou ativamente da construção do reinado com o título em 69. No ano seguinte, o time entrou forte para conquistar tudo que poderia em campo, mas acabou terminando a temporada com uma frustração gigantesca, sendo derrotado na liga, na Copa dos Campeões da Europa e na Copa da Inglaterra. E claro, ouvindo centenas de reclamações dos adversários, indignados com a brutalidade praticada. Tornou a repetir a conquista do campeonato inglês em 1973-74, quando Don Revie ganhou seu último troféu à frente do time. Para o seu lugar viria Clough, que ficou apenas 44 dias como treinador.

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Keegan soca Bremner no Charity Shield (Foto: Daily Mail)

Você não manda em mim, Clough

Clough viria a pagar pela sua língua anos depois, quando em julho de 74 assumiu o comando técnico da maior força na Inglaterra. E ele errou demais ao chegar impondo regras e uma mudança na filosofia do Leeds. Dizia que eles não mereciam nada do que foi conquistado no passado por sua truculência e desrespeito aos oponentes.

Imediatamente em conflito com os principais astros, minou seu clima de vestiário e logo na estreia em Wembley viu uma enorme confusão em campo e protestos da torcida dos Whites pela volta de Revie. O primeiro desafio do Leeds com Clough no banco foi contra o Liverpool durante o Charity Shield. Billy instigou os seus companheiros a continuar com a conduta quase anti-desportiva e praticamente caçou o atacante dos Reds, Kevin Keegan.

Em determinado momento, Keegan perdeu a paciência com as divididas por cima da bola e trocou socos com Bremner. O nanico foi expulso juntamente com o rival, que ainda proferiu alguns xingamentos em direção ao árbitro. O Liverpool venceu nos pênaltis após empate em 1-1 no tempo normal. Clough, claro, usou a briga de Billy para provocar uma mudança radical no elenco. Sem sucesso. Ele jamais teria autoridade o suficiente em relação ao grupo e sua saída um mês e meio depois do episódio foi justificada pela rota de colisão que ele entrou com o seu capitão e outras peças como Norman Hunter, Johnny Giles e Peter Lorimer.

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Duelo contra o Everton em 1971. Isso era Bremner (Foto: Independent)

Banido da seleção

Jogando pela seleção escocesa, onde teve 54 convocações, Billy se envolveu em uma briga colossal num bar em Copenhagen no ano de 1975, quando seu time enfrentava os dinamarqueses em um amistoso. Como punição, foi banido para sempre do escrete da Escócia e entrou em grande desprestígio após o ocorrido.

A derrota controversa contra o Bayern

O gol anulado do Leeds e a pancadaria após o apito final na decisão europeia contra o Bayern em 1975 ainda causam arrepios nos torcedores mais velhos do clube inglês.

Aquele foi talvez o ponto em que os Whites deixaram de figurar entre os campeões e entraram numa decadência que tem efeito até os dias de hoje. Durante o jogo, um clima tenso. Os britânicos não hesitavam em baixar o porrete no Bayern, que mesmo tomando o maior sufoco, apanhou para uma temporada inteira. Björn Andersson e Uli Hoeness saíram lesionados no primeiro tempo graças a entradas duríssimas por parte de Terry Yorath e Frank Gray.

Aos 16 minutos do segundo tempo, um gol de Lorimer foi anulado após o árbitro ter apontado o centro do campo (validando o tento). Com grande pressão de Franz Beckenbauer em cima do pobre apitador, que voltou atrás em sua decisão, o placar continuou 0-0, para a revolta dos ingleses no Parc des Princes em Paris. O juiz se defendeu alegando que Bremner estava impedido. Franz Röth e Gerd Müller marcaram os gols do Bayern, que saiu do estádio com o título europeu.

Saída de Elland Road e uma aposentadoria longe do sucesso

A frustração tomou conta de Bremner, que em 1976 abandonou o barco e saiu do clube para assinar com o Hull City, onde também seria capitão, aos 34 anos. Em 1979 foi para o Doncaster e foi jogador-treinador até 1981, mas pouco entrou em campo durante esse período.

Por que é descraque

Bremner pode até ter sido um excelente jogador, um meio-campo de respeito e capitão do melhor Leeds que se tem notícia. Mas ninguém vai apagar o histórico de brigão, agressivo e mimado por Don Revie, que tinha nele o seu queridinho no elenco. Billy ganhou uma estátua em Elland Road, o que representa sua importância. No entanto, as suas pancadas causaram tanto impacto quanto suas vitórias.

2 pensamentos em “Bremner, o encrenqueiro”

  1. Um escocês talhado para a Libertadores, rs. Grande texto! Só uma observação: o Leeds United não é londrino, e sim da própria cidade de Leeds, no norte inglês. Cumprimentos!

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