Pippo, o implacável

Ele desperdiçava pouquíssimas chances. A bola no pé dele quase sempre sabia que iria cair nas redes. De cabeça, com os pés, de voleio, driblando o goleiro e até tropeçando. Inzaghi fazia gol de qualquer jeito. Desde muito jovem até os 38 anos de idade, quando se aposentou, era especialista naquilo que muitos tentaram ser durante toda a carreira: minimamente eficientes.

Ao todo, em 21 anos de carreira, marcou mais de 300 gols, sendo 70 deles pela Liga dos Campeões. Não à toa era temido e sempre escalado pelo Milan em jogos pela competição. Nesse torneio em especial, só não conseguiu superar Raúl, o Mr. Champions, que fez 77. Fato é que Filippo, ou Super Pippo, fazia gols até sem querer. O cara era tão decisivo que numa final de Liga dos Campeões contra o Liverpool, em 2007, fez um gol apenas desviando a falta cobrada por Pirlo.

A sua trajetória começou lá em 1991 pelo Piacenza. A família sabia que ele era um talento, que tinha algo de diferente, mas precisava ter um porte físico mais apropriado. Coitado do menino, era magrinho, parecia uma vareta, mas era ligeiro nas arrancadas e parecia saber exatamente onde chutar a bola quando ficava de cara com o goleiro. Teve passagens breves pelo Leffe, pelo Verona, Parma e Atalanta antes de chegar na Juventus, em 1997.

Bom posicionamento, oportunismo e uma frieza invejável no momento da finalização eram as principais qualidades de Inzaghi como centroavante. Já que o tamanho (1,81m) não era o forte, ele compensava isso com boa impulsão e excelente cabeceio, fundamento que lhe permitiu ir às redes em incontáveis oportunidades. Artilheiro da Serie A em 1996-97 pela Atalanta, conquistou seu espaço e assinou com a Juventus.

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Foto: Forza Italian Football

Juventus: a consolidação como matador

Quando Inzaghi se juntou ao esquadrão bianconero, conquistou a Serie A em sua primeira tentativa. Seus 27 gols alavancaram a campanha da Juve, que terminou o campeonato com 74 pontos, cinco a mais que a Internazionale de Ronaldo.

O objetivo principal do técnico Marcello Lippi, porém, era reconquistar a Europa. E esse plano seria cumprido, não fosse o Real Madrid pela frente. Os espanhois levaram a melhor por 1-0 na final jogada na Arena Amsterdam na temporada 1997-98, com gol de Mijatovic.

De 1997 a 2001, Pippo vestiu a camisa da Juve e virou figurinha carimbada na seleção da Itália. Convocado para a Copa de 1998 e para a Euro 2000 quando estava no Delle Alpi, Inzaghi viu sua seleção perder dois jogos decisivos para a mesma França de Zidane. A vingança contra o careca, seu colega de clube, precisou esperar seis anos para acontecer. A sua despedida de Turim em 2001, foi com um saldo emblemático: 89 gols em 165 jogos. De lá saiu para o Milan, onde terminaria de colocar seu nome na história do futebol.

Shevchenko e Inzaghi

Foto: Forum Milan

Milan: dupla dinâmica com Shevchenko

Facilmente a era rossonera de Inzaghi foi a melhor de sua carreira. No San Siro ele levantou todas as taças possíveis. Ao lado de Shevchenko, era responsável por concluir as jogadas e especialmente nas partidas pela Liga dos Campeões, mostrava seu repertório.

Em grande fase, fez dupla letal com Sheva durante bons anos. Já veterano, virou lenda no San Siro. Apesar de não ser muito técnico, ou “caneludo” como alguns diziam, Pippo crescia quando era chamado. Nesse meio tempo, conseguiu se sagrar o maior artilheiro em hat-tricks na Serie A, com 10.

A França pagou pelos seus pecados

Viveu um doce interlúdio na Copa de 2006, onde a Itália superou uma crise que tomou seu futebol por inteiro. O calciopoli colocou muita gente na cadeia, rebaixou a Juventus e tirou um pouco da lisura e da credibilidade do esporte, tal qual em 1982, quando Paolo Rossi voltou à cena e virou carrasco do Brasil, após encarar uma punição de dois anos por envolvimento com o escândalo Totonero.

Subestimaram a Itália e ela se agigantou. Inzaghi deixou o seu gol contra a República Tcheca, na primeira fase. Campeão do mundo em cima da mesma França que o tirou da Copa de 1998 e venceu a final da Euro em 2000, Inzaghi e o povo italiano estavam vingados. Mas ainda faltava um capítulo em especial que ele carecia de resolver.

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Foto: Tifo Milan

Milan x Liverpool, capítulo II: vingança em Atenas

O Liverpool havia causado um trauma no torcedor milanista. Quando perdiam por 3-0 e foram buscar a igualdade para vencer nos pênaltis em 2005, trouxeram à tona todo um medo que o Milan nem sabia que tinha. Dois anos depois, em Atenas, o time inteiro tornou a vestir branco como em Istambul, só que com uma postura diferente.

Pouco antes do intervalo, Pirlo correu até a bola e chutou entre a barreira. Inzaghi desviou o arremate com o peito, justamente por estar no meio da trajetória da cobrança. Reina caiu para a direita e viu a bola entrar no meio do gol. 1-0. A tensão ainda era grande aos 81 minutos, o Liverpool tinha algumas boas chances. Até que Kaká deu um passe crucial por entre dois marcadores para acionar Pippo. Ele não titubeou quando invadiu a área e tirou Reina com um corte seco, chutando fraquinho. A bola demorou anos para entrar, mas garantiu a sétima taça da história do Milan.

Pippo quebrou mais alguns recordes e envelheceu bem no banco milanista. Mais tarde em 2007 ganhou o Mundial de Clubes da FIFA, ergueu mais uma Serie A em 2011 e se aposentou em 2012, diante do Novara. Desnecessário dizer que seu último adeus foi com um gol.

Por que era Descraque

Pippo não era exatamente um jogador muito ativo. Não era muito técnico, mas compensava isso com muito empenho e eficiência. Também ficava demais em posição de impedimento, o que motivou Sir Alex Ferguson a declarar certa vez que “Inzaghi já nasceu impedido”. Ele também tinha o costume de vibrar muito durante os gols que marcava. Talvez numa forma de exaltar o quanto ele conseguia brilhar entre atacantes muito mais completos.

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