Cruyff, o revolucionário

Ninguém mudou tanto o futebol quanto Johann Cruyff. Graças ao seu estilo de jogo e aos seus conceitos de esporte, a Holanda virou Carrossel Holandês, o Ajax virou potência e Rinus Michels colocou em prática um esquema tático que o consagrou como gênio. Estava tão à frente do seu tempo que também foi responsável pelo maior fenômeno coletivo do futebol no século XXI: a Era Barcelona.

Em 1959, Johannes Cruyff ainda se acostumava a caminhar sem ajuda de aparelhos ortopédicos. Graças a um defeito na formação dos pés, o pequeno e magricela holandês passou a infância vendo de longe as outras crianças correrem nos campos de futebol, enquanto frequentava pediatras e ortopedistas regularmente, sonhando também poder disputar uma bola. Naquele ano, o garoto recebeu a notícia que o seu pai morrera de infarto.

Precisando sustentar o filho, a viúva do senhor Cruyff conseguiu o trabalho de faxineira nas dependências do antigo estádio do Ajax, o Estádio Olímpico de Amsterdã. Acreditando que o futebol poderia ajudar no desenvolvimento das pernas do pequeno Johannes, ela decidiu inscrevê-lo nas categorias de base do clube — o que a faria arrepender-se um ano depois, quando o moleque quase a matou de desgosto ao largar a escola e anunciar que iria se dedicar totalmente à rotina de treinos.

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Cruyff, de braços cruzados (Foto: 4DFoot)

Em pouco tempo, Cruyff não só aprendeu a caminhar, como também dominou rapidamente a técnica do chute, do passe, do cruzamento e até mesmo da marcação. Surpresos com a versatilidade do jovem raquítico de olhos verdes, os treinadores da base prepararam um programa especial para que o garoto ganhasse força muscular e subisse rapidamente para o time principal do Ajax.

Demorou três anos para que Johann Cruyff ficasse pronto. Sim, pronto. Logo em sua estreia, o jovem marcou o gol do Ajax na derrota por 3 a 1 para o GVAG no Campeonato Holandês. Se a dona Cruyff o perdoou por ter largado os estudos, não sabemos. Mas ele nunca mais voltaria a ser reserva daquele time.

(Com ou sem) O mestre

Passando por quatro anos sem títulos, o Ajax resolveu contratar o ex-ídolo da equipe e então treinador de equipes inferiores da Holanda, Rinus Michels, para comandar a equipe profissional. O novo técnico, autoritário, chegou assustando o elenco com ideias autoritárias sobre disciplina tática, versatilidade e força física. Tudo o que reunia o jovem Johann Cruyff, que, apesar de nunca ter sido submisso, prontamente acolheu as ideias e passou até a participar da montagem da equipe com algumas sugestões, mesmo tendo pouca idade (muitos dizem, inclusive, que o esquema revolucionário de Michels usado no Ajax e na Seleção Holandesa, apelidado de “futebol total”, foi criado para que todos os jogadores se comportassem como Cruyff dentro de campo, movimentando-se o tempo todo e exercendo várias funções no gramado).

Com Michels, Cruyff, enfim, encontrou a sua posição ideal: todas elas. Incansável, o jogador parecia compensar todos os tropeços da infância com as suas arrancadas pelos quatro lados do campo. O estilo entusiasmou os companheiros que adotaram a ideia do técnico e fizeram o Ajax campeão holandês novamente em 1965/1966, logo na temporada de estreia do novo técnico, com sete pontos à frente do segundo colocado, Feyenoord.

Era o anúncio de uma época de títulos de Michels e Cruyff na Holanda. Com os dois juntos, o clube venceu ainda o Campeonato Holandês de 1967, 1968 e 1970, a Copa da Holanda em 1970 e 1971 e a Liga dos Campeões da Europa em 1971, o título mais importante da história do Ajax até aquele momento. Logo após a conquista do continente em cima do azarão Panathinaikos, comandado pelo aventureiro Ferenc Puskás, Rinus Michels foi contratado pelo Barcelona.

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Foto: 4DFoot

Cruyff recebeu proposta para acompanhar Michels e viver o “futebol total” no Camp Nou, mas ainda tinha muito trabalho a fazer no Estádio Olímpico. Sob o seu comando, o Ajax ganhou mais dois holandeses (1972, 1973), uma copa (1972) e mais duas (épicas) Champions League consecutivas (1972, 1973), sem contar o Mundial Interclubes (1972 – em 1971, o Ajax não quis disputar a taça intercontinental).

Em uma época em que os títulos tornaram-se comuns para o Ajax, vale ressaltar dois confrontos da Liga dos Campeões que marcaram a grandeza do futebol de Cruyff: a final contra a Inter de Milão em 1972, quando o craque marcou os dois gols da final (2 a 0), e a vitória por 4 a 0 no jogo de ida das quartas de finais sobre o Bayern de Munique de Maier, Beckenbauer e Gerd Müller na temporada seguinte da competição. Os alemães, na ocasião, juraram vingança. E ela viria justo no auge da carreira de Cruyff.

A volta incompleta do Carrossel Holandês

O maior jogador da história do país defendeu poucas vezes a sua seleção. Em apenas 48 partidas espalhadas em quase duas décadas de serviço ao futebol, porém, Cruyff marcou 33 gols e transformou a história da Holanda em Copas do Mundo. De uma seleção modesta, os Países Baixos passaram a contar com a Laranja Mecânica, uma equipe tão revolucionária para o esporte quando o livro de Anthony Burgess e a consecutiva adaptação de Stanley Kubrick foram para a literatura e para o cinema, respectivamente.

Depois de 20 anos longe dos Mundiais, graças a Cruyff, então melhor jogador da Europa, a Holanda voltou a disputar uma Copa do Mundo em 1974. Mesmo assim, a seleção de Rinus Michels (que acumulava trabalho em seu país e no Barcelona) e do craque chegava desacreditada na Alemanha. Mesmo com a base do Ajax e o treinador vitorioso do Barcelona, eles penaram para passar nas eliminatórias europeias. Muitos disseram na época que o rendimento fraco era culpa de um mau relacionamento do comandante com o seu principal craque.

Durante a Copa, no entanto, a Holanda mostrou que era tão forte quanto o assustador Ajax. Se a Europa já o temia e aplaudia ao mesmo tempo, o mundo todo pode se confundir também com atuações espetaculares de Cruyff e companhia contra a Argentina (4 a0), Brasil (2 a 0) e Alemanha Oriental (2 a 0). O encanto de todos os espectadores com as atuações e versatilidade da equipe o fizeram apelidar a seleção de Carrossel Holandês, em alusão à constante variações de posições dos jogadores em campo.

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Foto: 4DFoot

Rinus Michels já era considerado gênio. Cruyff, o melhor jogador da Europa e do Mundial, idem. Só faltava bater os donos da casa na final, o que Johann e seus companheiros de Ajax já haviam feito um ano antes com certa facilidade, para a consagração. Logo no início da final, a Holanda marcou o primeiro gol da partida de pênalti, com Neeskens. Foi Cruyff quem sofreu o pênalti. A Alemanha, que levou o gol sem sequer ter tocado na bola, reagiu aos poucos na partida, com a ajuda da torcida sempre participativa, enquanto os holandeses estranhamente foram minguando. Os anfitriões viraram a partida e foram campeões, mas até hoje muitos lembram aquela como a Copa de Cruyff, eleito o melhor jogador do Mundial.

A carreira de Cruyff na Seleção praticamente acabara naquela final. Ele até disputou as eliminatórias para a Copa seguinte, mas só as partidas mais importantes. Ao terminar o Mundial, o craque afirmou que não queria ficar longe da família. Alguns dizem que o real motivo para o holandês não ter viajado para a Argentina foi a sua posição política contrária à ditadura vigente no país sul-americano, mas não há confirmação sobre isso.

Blaugranas, porcos e rivais

Antes do Mundial na Alemanha, Johann Cruyff havia finalmente aceitado o convite de Rinus Michels. Ele foi contratado pelo Barcelona na a maior transação da história naquela época. Na Espanha, tornou-se tão ídolo quanto no Ajax. Logo na primeira temporada, foi o melhor jogador da campanha que tirou os blaugranas de um jejum que já durava 14 anos no Campeonato Espanhol. Ainda ganhou uma Copa do Rei em 1978, quando decidiu parar de jogar futebol.

Mas a aposentadoria de Cruyff não durou mais de um ano. Fora dos gramados, ele investiu dinheiro em negócios errados (criação de porcos), e o dinheiro começou a faltar. Em 1979, ele seguiu os passos de Beckenbauer, Pelé e Gerd Müller e rumou para os Estados Unidos. Atuou pelo Aztecs de Los Angeles e pelo Diplomats de Washington, ambos são hoje extintos. Foi ídolo por lá, mas sentiu falta de profissionalismo. Voltou para a Espanha, jogando no Levante, na segunda divisão, em 1981. Só que ainda não era isso que Cruyff precisava para parar de jogar em paz. Decidiu, então, retornar ao seu clube de origem, o Ajax, em 1981.

Cruyff surpreendeu o mundo ao mostrar que ainda não tinha acabado para a profissão. Foi campeão holandês e da Copa da Holanda. E causou ainda mais espanto ainda quando decidiu encerrar a carreira no rival Feyenoord, onde foi eleito o melhor jogador do país em 1983 e 1984. Encerrou a carreira e recebeu como homenagem o perdão da torcida do Ajax, que o aceitou como técnico.

Spanish Soccer - Primera Liga - Barcelona v Espanol

Rinus Michels e Cruyff (Foto: 4DFoot)

Era Barcelona

Como treinador, repetiu em boa parte o brilhantismo dentro de campo. Se, quando assumiu o Ajax, em 1985, Cruyff ainda não estava preparado para o ofício, pelo menos usou o seu clube de origem para moldar alguns talentos (Dennis Bergkamp é cria dele) e a implantar ideias na divisão de base que fariam o clube holandês um dos principais formadores de jogadores nas décadas seguintes.

A sua carreira começou de verdade no Barcelona, repetindo a transferência dos tempos de jogador, em 1988. E ele já chegou arrumando confusão, mandando oito jogadores embora, incluindo o meia alemão Bernd Schuster. Cruyff prometia trazer uma filosofia de jogo diferente para os blaugranas, parecida com o Carrossel Holandês. Nem todos acreditaram na época, mas a promessa do ex-jogador foi cumprida nos anos seguintes, conquistando o tetracampeão espanhol (1991, 1992, 1993, 1994) e o então inédito título da Liga dos Campeões (1992).

Seu período como treinador do Barcelona ficou marcado por brigas constantes com craques (Romário e Stoichkov) e pela valorização da posse de bola vem campo. Guardiola foi seu jogador e aprendeu tudo no vestiário. Cruyff, que gostava de se intrometer em tudo, influenciou as divisões de base, que revelariam anos depois Messi, Fábregas, Piqué, Xavi e Iniesta, seguindo algumas visões sobre o futebol do ex-craque holandês.

Após um infarto em 1996, Cruyff decidiu parar com o ofício de treinador. Atualmente, passa o tempo defendendo o futebol do Barcelona e cornetando o futebol de outros times por aí. Ele sabe e faz questão de ressaltar que o sucesso da seleção da Espanha e do Barcelona foi diretamente influenciado pelo seu trabalho.

Num tempo de futebol sem frescuras, Johan fugia do comum e vestia a camisa 14. Foi o primeiro jogador a ter o patrocinador pessoal, a Puma. “El Flaco”, como era conhecido por alguns pela sua magreza, revolucionou o futebol não só pelas suas pernas, recuperadas de uma infância limitada, mas também pelas suas ideias. Fez de tudo em campo e fora dele. Por isso, a figura do holandês é tão importante e citada nos dias de hoje. Pois para entender o futebol de hoje, dinâmico, de troca de passes, é preciso conhecer antes Cruyff.

Frases

“Em toda a minha vida, nunca aceitei uma ordem”
“Futebol é inteligência e qualidade, mas também um pouco de amor”
“Antes de cometer um erro, eu não cometo esse erro”.
“Se a bola está com a gente, eles não conseguem marcar gols”

“A Alemanha não venceu a Copa de 1974. Nós (Holanda) que a perdemos”

Por que foi craque: muito técnico, conseguiu atuar bem em todas as posições possíveis tirando o gol. Graças a ele, o Ajax virou o melhor time da Europa no início dos anos 70. Além disso, foi líder do “futebol total” de Rinus Michels e fez com que a Holanda disputasse a sua primeira final, encantando o mundo. Fora isso, ainda foi vitorioso como técnico, revelando uma boa safra no Ajax e iniciando o estilo de jogo de troca de passes que fez com que Barcelona e Seleção Espanhola criassem uma nova era de títulos no futebol.

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