Gerd Müller, o ex-gordo

Em 2012, o mundo do futebol voltou a falar de Gerd Müller. Como se o alemão fosse mais um zagueiro, Messi o deixou para trás no hall dos recordistas do esporte, marcando 91 gols durante o ano. Muller, até então o dono do recorde de tentos em uma mesma temporada, havia feito 85 de janeiro a dezembro de 1972.

“Ele mereceu me ultrapassar. Com as defesas atuais, os atacantes precisam marcar mais gols. Meu recorde durou por 40 anos e, agora, o melhor jogador do mundo o quebrou. Estou encantado por ele. Messi é um jogador incrível, gigantesco”, disse Müller sobre Messi, ao periódico italiano Gazzetta dello Sport.

Müller sabe que o feito do melhor jogador do mundo só enaltece a importância dos seus números. Ser ultrapassado por um extraterrestre como Lionel Messi não é demérito algum, até porque sobraram com o alemão outros recordes importantes que servem como consolo. Der Bomber, “O Bombardeiro” em alemão, é o maior artilheiro da história da Bundesliga, com 365 gols em 427 jogos. E, por enquanto, ainda mantém o mesmo posto na história da Seleção Alemã, com 68 gols em 62 partidas e a média impressionante de 1,1 por jogo. Miroslav Klose, que não é de outro mundo, tem 67 gols e deve ultrapassá-lo em breve.

Gerd Muller foi uma máquina de recordes e de gols. A Copa de 1970 foi marcada pelo timaço do Brasil, mas o artilheiro do Mundial foi ele, com 10 gols. Até 2010, inclusive, era Muller o maior artilheiro da história das Copas, com 14 gols, até ser ultrapassado por Ronaldo (15) e igualado por Klose (ele, de novo). Mesmo com histórico de gordinho, o atacante alemão se acostumou a ver, em campo e na história, os outros correndo atrás dele.

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Foto: Bleacher Report

“Cara, como você é gordo!”

Gerd Muller sempre foi o gordinho da turma. Na infância, era chamado por “Der dick” pelos colegas, o apelido que todo gordinho recebe na Alemanha (dick na terra do chucrute quer dizer “grosso”. Mas o que você está pensando é naturalmente chamado de “schwanz”, “schwengel” ou “glied”). Quando se tornou profissional, o jovem Muller, de 1,74m, ainda mantinha características da sua fase mais rechonchuda, como o corpo troncudo e as coxas grossas de 64 centímetros de circunferência. Tanto que a sua forma física gerou comentários maldosos do então treinador do Bayern de Munique, Zlatko Cajkovski, quando os bávaros o contrataram para a disputa da segunda divisão da Bundesliga, em 1964.

“O que vou fazer com um halterofilista?”, teria dito o treinador ao ver Müller pela primeira vez. Se Neymar era o “filé de borboleta” no início da carreira, Gerd era, segundo a lógica de Vanderlei Luxemburgo, o filé de rinoceronte.

Sofrendo com o preconceito contra gordinhos, o jogador recém-chegado do modesto TSV Nördlingen demorou para provar a sua força (trocadilho infame com halterofilista) no clube mais tradicional da Alemanha. Cajkovski insistia em ironizá-lo, chamando-o de “pequeno e gorducho Müller” e sempre o deixava no banco de reservas. O treinador simplesmente ignorava o fato de que aquele jovem e robusto atacante havia marcado incríveis 180 gols pelo Nordlingen na temporada 1962-63.

Foi preciso que o então presidente do Bayern, Wilhelm Neudecker, exigisse a entrada do garoto no time principal para que Gerd Müller estreasse com a camisa vermelha. Logo na estreia, ainda em outubro de 1964, o atacante provou que o cartola estava certo: foram deles os dois gols na vitória dos bávaros contra o Freiburg. A consagração veio no ano seguinte. Müller ao lado de lendas do porte de Sepp Maier e Franz Beckenbauer, como um bom halterofilista, levantou o Bayern até a primeira divisão alemã.

Perguntado na época sobre a sua impressionante força dentro de campo, o gordinho Müller revelou o segredo: “Devo tudo à salada de batatas preparada pela minha mãe”. Boa, dona Müller.

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Foto: Bundesliga.de

O bombardeiro bávaro

Com Gerd no comando do ataque, o Bayern foi campeão da Bundesliga nos anos de 1969 e no tricampeonato de 1972, 1973 e 1974, da Copa da Alemanha em 1966, 1967, 1969 e 1971 e da Liga dos Campeões por três anos consecutivos (1974, 1975 e 1976), que acabou resultando no Mundial de 1976, conquistado em cima do Cruzeiro. É claro que a equipe contava com outros craques, (além dos já citados Beckenbauer e Maier, passaram por lá durante a era de ouro Paul Breitner, que transferiu-se para o Real Madrid em 1976, e a então revelação Karl-Heinz Rummenigge, só para ficar entre os mais famosos), mas não dá para imaginar tantos títulos sem o centroavante.

Isso tem a ver com a sua incrível habilidade em quebrar recordes. Müller foi o principal goleador do Bayern de Munique por simplesmente 14 temporadas seguidas (de 1964/65 a 1977/78), sendo que, nesse intervalo de tempo, foi artilheiro da Bundesliga por sete vezes (1967, 28 gols, 1969, 30 gols, 1970, 38 gols, 1972, 40 gols, 1973, 36 gols, 1974, 30 gols, 1978, 24 gols). Messi o superou em números gerais da temporada, mas até hoje nenhum jogador superou a sua marca de 1972 no campeonato nacional.

Müller é o maior artilheiro da história do Bayern de Munique, com 525 gols anotados em 15 anos de serviços prestados ao clube.

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Foto: Aneki

Do lado ocidental do muro

Mas foi com a camisa ora verde, ora branca da Alemanha Ocidental que Gerd Müller entrou para a história como um dos maiores centroavantes de todos os tempos. Chamado de “cowboy” por alguns, por ser rápido e certeiro em espaços curtos, e de “O Bombardeiro” por conta do seu chute forte, o atacante era temido por zagueiros de diversas nacionalidades graças à sua incrível explosão e velocidade de movimentos dentro da área, o que compensava uma certa lentidão em virtude do porte físico robusto que volta e meia voltava a aparecer no consagrado artilheiro.

Gerd Müller era obcecado apenas por gols e recordes, mas nunca pela plasticidade dos lances. Sua meta era superar o goleiro, da maneira que fosse preciso. “Nunca tentava o ângulo. Só tentava colocar a bola rente ao chão, pois é mais difícil para o goleiro a bola rasteira do que a alta”, disse, após se aposentar.

A sua imensa capacidade dentro da área fez calar a bola do treinador da Alemanha Helmut Schon, que havia tido a coragem de dizer em certa ocasião para a imprensa a seguinte ofensa: “Müller é gordo, não é bem um jogador de futebol. Faz gols por sorte”. Precisando de gols, Schon mudou de ideia e levou o atacante para as Eliminatórias para a Copa de 1970. Gerd não só resolveu várias partidas e garantiu a classificação da seleção, como foi titular no Mundial do México e acabou se sagrando o artilheiro da competição, com 10 gols. Mesmo na eliminação, Der Bomber marcou dois dos três gols marcados pela Alemanha Ocidental na semifinal épica contra a Itália. A partida terminou em 4 a 3.

O ápice da carreira de Muller começaria dois anos depois. Na Bélgica, marcou duas vezs na final da Eurocopa diante da União Soviética (3 a 0) e saiu da competição continental com o título e prêmio de artilheiro do torneio, com quatro gols. Depois do continente, faltava conquistar o mundo. E a geração talentosa de Muller e Beckenbauer conseguiu em casa, no Mundial de 1974, desbancando a fantástica e favorita Holanda de Johan Cruyff na final. O gol da vitória foi dele, Gerd Müller, aproveitando um cruzamento rasteiro da direita. Com o tento, Müller tornava-se o maior artilheiro de todas as Copas, com 14 no total, marca superada por Ronaldo apenas 36 anos depois.

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Foto: Tumblr

Decadência e ressurgimento

Depois de uma carreira vitoriosa no Bayern de Munique e na Seleção Alemã, Gerd Müller seguiu os passos de Franz Beckenbauer e Pelé e rumou para os Estados Unidos. Atuou pelo extinto Fort Lauderdale Strikers sem muito brilho e se despediu do futebol em 1981, aos 36 anos. Aposentado, Müller decidiu permanecer nos Estados Unidos e tentar iniciar uma nova vida na Flórida. Foi a pior fase da sua vida.

Der Bomber virou um alcoólatra. Montou um bar, mas pessoas próximas do ex-craque afirmar que era ele mesmo quem consumia todo o estoque de bebidas. Perdeu todas as economias guardadas nos tempos de Bayern e Fort Lauderdale e viu a sua mulher pedir divórcio.

Aos 46 anos, em 1991, foi internado em uma clínica, graças à ajuda dos amigos Franz Beckenbauer e Uli Hoeness. Após a reabilitação, foi empregado como assistente técnico do time principal do Bayern de Munique.

Hoje, Gerd Müller vive bem. É treinador das elogiadas categorias de base do atual campeão da Liga dos Campeões e não bebe mais. De quebra, ainda superou um problema da infância que o aflingiu até mesmo nos tempos de jogador profissional. Vejam só, Der Bomber está magro.

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