A Libertadores da firma

O futebol entre amigos, ah, o futebol entre amigos. Consagrando grandes farsas e humilhando os desprovidos de qualquer talento na arte de ser ao menos aceitável no esporte. Reflexos de uma noite inesquecível na Arena do Colégio Assunção.

Devia ter escrito antes esse texto, sobre um jogo que talvez tenha sido um dos melhores que fiz na vida (e olha que antes de virar sedentário eles não foram poucos). As expectativas foram correspondidas e chutar a bola naquela noite certamente foi a melhor terapia pra uma fase complicada da vida.

Prelúdio: 25 de março, Arte e futebol society, Butantã – São Paulo

Tava tudo cagado naquela semana. Pior festa de aniversário possível, pior pós festa de todos os tempos, piores companhias e uma segunda-feira infernal. O melhor remédio era mesmo jogar futebol pra esquecer. Não esperava um convite do Celsinho pra jogar na Corifeu, mas lá fui com a cara e a coragem, a fúria e a resignação de uma situação que deixei acontecer sem perceber. Fruto da minha acomodação e um pouco da minha mania de querer controlar o destino, entrei em campo com mais vontade do que cabeça, mais cobrança do que paciência e acima de tudo, sem pontaria.

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Tem gente que bebe pra esquecer um relacionamento tosco, tem gente que enche o nariz de pó pra superar um trabalho cagado ou uma crise familiar. Eu não tinha nenhum dos dois, mas mesmo que tivesse, resolveria na bola. É meu jeito de lidar com a vida, porque o futebol explica quase tudo, tem todas as respostas que preciso. Assim fui para os dois jogos que me esperavam na semana. E a verdade é que no primeiro eu estive mal, me machuquei logo no começo e fui me arrastando até o final, errando tudo. (<<<<< foto)

Não foi dessa vez que eu calei os críticos. Aquela massa que fala alto na minha cabeça quando me sinto pra baixo. Sentindo uma dor intermitente no tornozelo e as fisgadas na coxa, andei até a tarde de quarta, quando me preparava para a tão esperada Libertadores da firma. Pois é, os colegas de trabalho iriam se reunir na quadra ao lado de casa, a lindissima Arena do Colégio Assunção para o futebol mensal (faltou abril e maio nesse mensal, galera, mas vamo lá).

Saí no horário de sempre, caminhei 2,5km da redação até a minha casa e tentei não sentir nenhuma contusão no caminho. Mas os músculos estavam extenuados. Parei meia hora e na TV o Palmeiras perdia por 6 a 2 para o Mirassol. Qualquer um teria saído de casa de cabeça baixa e convencido de que a noite só poderia piorar. Após a peleja, o bar me esperava com a ilustre visita do irmãozão Arthur.

Agora vai: 27 de março de 2013 – Arena do Colégio Assunção – São Paulo

A vida pode ser um grande cala a boca de vez em quando. Isso quando não é um enorme SENTA AÍ E FICA QUIETINHO NO SEU CANTO, SEM ABRIR O BICO. Com uma segunda-feira desastrosa, precisei dar um jeito na desmotivação e na vontade de tirar férias de tudo pra tentar me reerguer. A caminhada até o campo foi um tanto quanto estranha. Só queria não sair machucado de novo e fazer um ou dois gols. Ganhar aquela moral.

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Vestido com as cores da Sérvia, lembrei das últimas vezes em que usei o uniforme inteiro e me saí bem. A superstição está ali, mesmo que eu finja não acreditar. E assim chutei as primeiras bolas no aquecimento, estava bem. A cabeça saiu do ponto morto e do desânimo. Vamos. Era Libertadores. E em Libertadores não se entra desanimado, chega pra matar e arrancar o coro.

Sair perdendo de 2 a 0 e não chegar na bola é frustrante. Logo comecei a pensar que sempre estou no time derrotado e isso tem sim uma razão. “Você é ruim, pede pra cagar e sai”, dizia uma vozinha perdida na minha cabeça. A outra, mais grave: “HOJE NÃO, CARALHO!”. Bola em mim. Para, pensa, olha os espaços, o Celso (Hässler) tá chegando perto, é agora, lança, chuta, se livra dessa bolVAAAAAAAAAAAI GIOVANNI! Passe completo.

Pensa rápido, se não o bicho pega

Bola no campo de ataque. Vem o Marcio marcar, eu corto, acerto o drible. Bom, ganhei confiança, olha pro lado e passa o Zanni (Zinedine Zizanni), passe completo. Depois, segura bem a bola, penteia e acha o Giovanni (Giovannilo) na direita, passe completo. Mas eu só passo? Será que não chego? Renato (O Ganso que corre) chuta lá de trás, domino, olho o Lobo vindo pra tentar o desarme, giro e passo de volta, corro pra linha do gol, chute pra fora do Lucas. UH! Tá saindo. (e eu não errando tanto assim)

Corre pra lateral direita. E vem o Stein cercando. Que fazer? Dribla ou cruza? Vai pra cima dele, menino. Corta pra esquerda, pra direita, ele deu o bote, vai pra direita EITA PORRA ROLINHO ai cacete, olha o Marcio, já era. COMO ASSIM MAIS UM DRIBLE AGORA CHUTA chutou bateeeeeeeeeeeeu na trave! Puta que pariu! Deus é montenegrino, certeza.

Renato (Schweinsteiger) desce carregando a bola pelo meio e toca no Zizanni, que para e rola na direita, Portes (Lazovic) chega e chuta no canto. POU, NA REDE. Comemora, soca o ar e xinga. Vai exorcizando alguns fantasmas. Chuta cruzado de longe e acerta mais uma vez. GOL! Agora tá saindo, tô gostando de ver. Pedi um aumento ao Caio, que me xingou e ainda acertou minha canela fora do lance. O chefe mal guentava correr, mas tirava a maior onda.

Giovannilo tava lento na direita, mas acertava uns chutes perigosos, dominava bem e segurava ainda melhor a bola pra aproximação. Comecei a armar uma correria pra cima da defesa dos caras, até o Lobo sair de lá e passar a sair mais pro ataque. Deve ter feito uns cinco gols de bicuda, bem volantão. Quando não fez, parou na muralha chamada Ubiratan, ou Ubirabanks, o nosso Jorge Campos boliviano. Eu (Kezman) fui começando a me soltar e a confiança aumentou. Calcanhar aqui, drible ali, domínio enfeitado. Tudo dando certo.

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Foto: UEFA

Sarajevo ´95 revisitada

Infernizei os caras. “Alguém quebra esse sérvio, tá louco!”, dizia o Lobo, que me calçou num lance e pedi pênalti. Capotei e ninguém marcou, ainda me chamaram de Neymar. Aí mexeu com o brio, trouxe à tona o espírito Belgrado ´92, ou até Sarajevo ´95. Stein ainda tentou desestabilizar, me chamando de croata, filho de uma croata com um bósnio. Me esquentei (mentira, só quis driblar ele pra descontar), valia mais pra mim do que pra qualquer um ali. Além da confiança, era a superação depois de dias terríveis, da cólera da ansiedade e da vontade de comemorar alguma coisa que não fosse o de sempre. GOL, GOL, GOL, GOLAÇO, TOMA LÁ! NEYMAR É O CARALHO!

Virou coisa séria. Pra mim, claro, eles estavam pouco se lixando. A diversão pra mim foi tentar fazer gol de qualquer jeito, de qualquer lugar e ter a satisfação que eu procurava. Não, não é doentio competir desse jeito em clima de brincadeira. A partir do momento em que eu não preciso bater em ninguém pra isso, continua saudável. É só uma questão de ponto de vista. Eu queria vencer mais do que todo mundo. E consegui.

Faltou a transmissão da Rede Globo

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Aos poucos a brincadeira foi esfriando. E eu (Stokjovic) segui correndo que nem louco, era Copa do Mundo, era final de campeonato. Mais um gol aqui, outro ali, uma troca de passes bem executada.

Deu até pra carimbar o Caio quando ele foi pro gol. Chutei duas bombas cruzadas, ele nem quis entrar na trajetória da bola. Na minha cabeça, ouvia uma torcida vibrando, barulhos de bombas caindo e aquela vontade de sair gritando. Finalmente tinha um bom motivo pra sorrir. E como eu queria que alguém tivesse gravado o jogo, só pra guardar de lembrança e mostrar que um dia eu fiz algo decente em campo, não só as bobagens e os gols perdidos, as vezes que saí machucado ou sem marcar nenhum golzinho sequer.

Outro fato que me alegrou foi a capacidade de deixar os companheiros em boa condição. Zizanni bem deve lembrar que cruzei uma bola lá do fundo pra que ele batesse de primeira pra marcar um golaço. Fiquei extremamente contente (e convencido) de ter dado uma assistência dessas. O roteiro surpreendeu, não esperava uma noite tão iluminada, dado o contexto daquela semana. Desde então eu até sonho que voltei pro 27 de março. Aí lembro que a vida desenrolou bem melhor em maio e desencano, só espero por um outro jogo, outra Libertadores.

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