O carinho do titã

*Por Eduardo Madeira

Maior ícone do futebol perfeccionista alemão das décadas de 1990 e 2000, Oliver Kahn ficou com fama de cara mau, coisa que a sua fisionomia de certa forma facilitou; mas um ato em especial desmistifica o jeitão de carrasco do goleiro.

É difícil gostar de Oliver Kahn à primeira vista. Loiro, quase 1,90m de altura, mas muito mal encarado, bravo, estilo “malucão”. Você pode até procurar registros fotográficos ou multimídia, será raro encontrar uma imagem deste cidadão sorrindo.

Mas como o mundo é um lugar engraçado, venho dizer que Oliver Kahn proporcionou uma das cenas mais marcantes que vi em finais de campeonato. Não foram suas espetaculares defesas, suas pontes ou arrojadas saídas de meta em bolas enfiadas, nem mesmo suas imperdoáveis falhas na final da Copa do Mundo de 2002, mas sim um gesto de carinho.

O Bayern havia conquistado a Liga dos Campeões de 2001 nos pênaltis contra o Valencia. Fazia 25 anos que aquele título não vinha e os bávaros bateram na trave dois anos antes na histórica final contra o Manchester United, onde o revés veio com dois gols nos acréscimos. Era uma festa atrasada e com muitos motivos para ser celebrada.

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Foto: NDR.de

Todos vibravam com a conquista, era um momento único. Kahn, após defender o chute de Mauricio Pellegrino no pênalti que rendeu o título ao Bayern, até saiu para comemorar, mas notou uma cena que lhe obrigou a dar meia volta e prestar ajuda a um companheiro. Era Santiago Cañizares, goleiro do Valencia, atirado no chão e aos prantos. Momento comovente e compreensível. Assim como Kahn, era a segunda final de Liga dos Campeões que o espanhol perdia.

O alemão optou por deixar a comemoração de lado e foi em direção do arqueiro do Valencia. Muitos poderiam ir até lá para tirar um sarro e provocar uma confusão sem precedentes e a julgar pelas características de Kahn, não seria muito surpreendente. Mas ele foi consolá-lo, se ajoelhou junto a Cañizares e falou algo que talvez só eles saibam até hoje o que era. O espanhol foi ajudado pelo companheiro a ficar de pé e a seguir em frente.

Um gesto único, uma atitude que só os ídolos são capazes de fazer. Aliás, “ídolo” é uma alcunha que Kahn fez jus. Assim como Rolf, seu pai, e Axel, irmão mais velho, iniciou a carreira no Karlsruher e apesar de estrear pelo clube sofrendo uma goleada de 4×0 diante do Colônia de Littbarski, Morten Olsen e Bodo Illgner, fez história entre 1987 e 1994, participando da campanha na Copa da UEFA de 1993-94.

Neste torneio, os alemães proporcionaram o “milagre do Wildparkstadion” – derrota na ida para o Valencia por 3×1 e virada por 7×0 na volta – e eliminaram o Bordeaux de Zidane. Só o Áustria Salzburg, já nas semifinais, foi capaz de derrubá-los. No Bayern, além do título europeu de 2001, conquistou outros 22 títulos, incluindo oito da Bundesliga e o da Copa da UEFA de 1996, título que escapou com o Karlsruher, mas recuperado na Baviera.

A decepção na seleção

As 23 conquistas pelo Bayern não foram refletidas na seleção. Seu único título foi como reserva na Eurocopa de 1996. Mas a decepção maior foi em 2002 na Copa do Mundo realizada na Coreia do Sul e no Japão.

Kahn fez excepcional torneio, principalmente contra Irlanda e Estados Unidos, quando travou duelos épicos contra Robbie Keane e Landon Donovan. A Alemanha chegou a final graças a ele, afinal, a defesa montada por Rudi Völler falhava a todo o momento e Kahn era obrigado a trabalhar diversas vezes.

Mas os sempre articulosos “Deuses do Futebol” armaram para o goleiro alemão. Ele chegou à decisão tendo sofrido um mísero gol, na decisão contra o Brasil sofreu dois e o pior, falhou em um deles. No chute colocado, mas sem muita força de Rivaldo, Kahn bateu roupa e deixou a bola parar nos pés de Ronaldo que fez um dos gols do pentacampeonato brasileiro.

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Foto: Daily Mail

Oliver se culpa até hoje e aquela falha e acaba, sem querer, dando motivos para quem defenda a ideia de que ele não foi o principal jogador daquela Copa do Mundo. Ele disputou ainda a Copa de 1994 como terceiro goleiro e a de 2006, realizada na Alemanha e, já em fase de declínio, cedeu espaço para Jens Lehmann. Kahn disputou apenas a partida que valia o terceiro lugar do torneio.

Sua aposentadoria aconteceu em 2008, na goleada por 4×1 sobre o Hertha Berlin. Michael Rensing seria seu substituto, depois a aposta foi em Thomas Kraft, mas Manuel Neuer, cria do Schalke, foi o único a conquistar a simpatia da torcida. Agora, para Neuer chegar ao nível de Kahn, basta conquistar 23 títulos pelo Bayern, 29 prêmios individuais, perder a cara de bom moço e ainda assim mostrar raros gestos de simpatia. Simples, não?!

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