O homem certo na hora certa

Ricken chegou muito jovem ao lugar que vários atletas tanto desejam na carreira. Mas o futuro não lhe reservou o sucesso que era esperado e ele foi vítima de várias lesões até sua aposentadoria.

Eram jogados redondos 26 do segundo tempo no Olímpico de Munique quando o menino Lars, de apenas 21 anos, teve a chance para fazer o que milhares de colegas seus da muralha amarela sonharam, mas nunca tiveram como realizar. Uma final de Liga dos Campeões estava em andamento e o Borussia Dortmund vencia a forte Juventus de Del Piero, Zidane e Deschamps por 2-1.

Riedle já havia dado uma certa tranquilidade aos torcedores alemães quando marcou duas vezes no primeiro tempo. Acuado em campo e acompanhando a Juventus atacar e chegar perto do empate, o treinador Ottmar Hitzfeld efetuou uma substituição que iria mudar os rumos da partida, do Dortmund e de um certo camisa 18.

Desmarcado, o menino observou um grande espaço e correu pela direita logo em seu primeiro lance. Com muita felicidade, acertou um chutaço por cobertura em Peruzzi, sacramentando a vitória aurinegra, logo a mais importante de toda a história do clube. Ricken teve a frieza e a ousadia necessárias para balançar as redes italianas como muitos veteranos teriam falhado.

Era o prêmio para quem estava desde 1993 no clube e passaria o resto de sua carreira defendendo as cores do Dortmund, coincidindo com a grande fase dos germânicos na Europa. Foram 15 anos de serviços prestados por Ricken, um operário e que nem teve a fama que gostaria.

As quatro Bundesligas, a Liga dos Campeões e o Mundial Interclubes de certa forma pareceriam exagerados e até uma utopia para outros jogadores que tiveram mais reconhecimento do que Lars. O fato é que é difícil relembrar outro atleta que teve o seu auge tão cedo quanto o dele, representado em forma de golaço numa decisão europeia.

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Foto: Spox

Um auge precoce só poderia resultar em rápido envelhecimento

Ele nunca conseguiria igualar o feito ante a Juventus, nem mesmo quando o Dortmund venceu a Bundesliga de 2001-02 por uma margem estreitíssima em relação ao Bayer Leverkusen.

Técnico e empenhado, tinha um bom chute de longa distância e boa condução de bola, dando qualidade nas saídas. Alguns o chamariam de meia boca nos anos que sucederam o título europeu, mas a verdade é que Ricken foi bem regular e nunca comprometeu o esquema quando atuou. Entretanto, foi ofuscado por Rosicky, e conseguiu manter um nível suficiente para desbancar o tcheco depois de 2000.

Sumido na decisão da Copa UEFA em 2002 contra o Feyenoord, o camisa 18 perdeu a chance de levantar sua segunda taça europeia em cinco anos. Era uma missão difícil para um combalido time treinado por Matthias Sammer, mas que pouco tinha daquele elenco que venceu a LC em 1997. Apenas Ricken e Köhler participaram das duas decisões. Os holandeses levaram a taça ao vencer por 3 a 2 com dois gols de Pierre van Hooijdonk.

Vítima do destino

Ricken não era nem de longe o principal destaque nos últimos bons anos do Dortmund antes da quase falência. Lutando contra várias lesões desde 1998, perdeu grandes competições pela Alemanha e virou um reserva de luxo. Foi chamado apenas para a Copa das Confederações em 1999 (fez dois jogos e os germânicos caíram ainda na primeira fase) e para a Copa do Mundo de 2002, onde só foi a passeio e não atuou. Fiel ao clube que o revelou, permaneceu no Westfalen até sua aposentadoria em 2008, enfrentando até uma despromoção ao time B em seu último ano no futebol.

Se por um lado teve sua estreia como profissional logo aos 17 e virou titular aos 18, por outro acabou se tornando um veterano muito cedo. Não se transformou na estrela que todos esperavam, mas não precisou disso. Ter seu nome gritado sempre pela mesma torcida e protagonizar o maior sonho de toda a massa aurinegra é um consolo e tanto.

Pode ser que o mundo não se lembre de Lars como um jogador diferenciado ou que tentou se credenciar para estar entre os grandes de seu tempo. Para estes, será sempre o menino que entrou no segundo tempo e garantiu o caneco na Liga dos Campeões. Nunca uma vida poderia ser resumida por apenas um gol. E não, essa não foi uma indireta para Adriano Gabiru.

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