Lothar, o leão

Lothar Matthäus foi o maior recordista de convocações para a seleção alemã, o atleta que mais disputou partidas em Copas do Mundo, mas encerrou sua carreira sem vencer uma Liga dos Campeões; pouco para uma lenda como ele.

Matthäus foi um recordista e com justiça é lembrado como um dos maiores do futebol mundial. Ainda menino, um prodígio, jogava pelo Borussia M´Gladbach em 1979, não demorou a estrear por sua seleção. Logo na sua temporada de estreia participou de uma decisão de Copa UEFA, quando o M´gladbach foi derrotado pelo Eintracht Frankfurt. Quatro alemães formaram a fase de semifinal do torneio, que teve Bayern e Stuttgart caindo antes da decisão.

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Foto: 50 jahre Bundesliga

Foi até difícil não começar o texto já falando de um título, mas a verdade é que a carreira de Lothar foi mesmo cheia deles. O meia rápido e extremamente determinado era o motor do Borussia M´gladbach que atravessava grandes anos na Alemanha e na Europa.
Um ano como profissional o colocou entre os atletas mais respeitados na Alemanha, respeito que rendeu uma convocação para a Eurocopa em 1980, culminando num título contra a Bélgica. Durante seus primeiros anos, foi um dos garçons para o ataque dos Potros e ao mesmo tempo que era visto como um talento a ser garimpado, também demonstrava maturidade para se firmar como uma realidade. Cinco anos no Bökelberg e a reputação como exímio construtor de jogo, finalizador e marcador implacável só poderiam mesmo valer um contrato com um gigante.

Na maior potência alemã

Em 1984, O Bayern vivia uma nova era após os anos de prestígio e os vários títulos internacionais. Lothar foi um dos escolhidos para representar as mudanças que vinham sendo efetuadas no time, multicampeão nacional na primeira parte da década de 80.

Ao lado de alguns remanescentes dos anos 70 e talentos que não eram tão novos assim como Dieter Hoeness e Michael Rummenigge (irmãos menos famosos de Uli e Karl-Heinz), fez seu nome ao conquistar três vezes a Bundesliga e uma vez a Copa da Alemanha. Virou titular na seleção alemã e teria a chance de provar seu valor. A Copa do Mundo de 1986 o esperava e a sua nação alcançaria a decisão pela segunda vez em três mundiais.

A Argentina deixou os germânicos a ver navios com um 3-2 na decisão, mais um abalo para Lothar, que viveu cada minuto daquela decisão. O troco viria só quatro anos depois, em território italiano, que Matthäus pôde conhecer muito bem. Por outro lado, seu último jogo europeu pelo Bayern não foi nada feliz. Derrotado na semifinal da Liga dos Campeões para o Real Madrid, a despedida doeu tanto quanto na final de 1987, quando o Porto levou a taça após uma virada improvável com gols de Madjer e Juary.

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Foto: Os maiores do futebol

Entre os maiores do mundo

A Inter caiu como uma luva no estilo de Matthäus. Ao lado dos conterrâneos Andreas Brehme e Jürgen Klinsmann, viveu grandes anos de 88 a 92 e esteve constantemente citado como um dos melhores jogadores do planeta.

Contemplado com o prêmio da Bola de Ouro da France Football em 1990 e como Melhor Jogador do Mundo pela FIFA em 1991, o alemão comeu a bola na Serie A e devolveu a Inter ao grupo dos concorrentes ao título italiano.

Vencedor do campeonato italiano em 1989 e da Copa UEFA em 1991, o meia esbanjava classe e não à toa virou líder de um dos grandes trios da Serie A naquele período. Parecia difícil competir com o Milan de Gullit, Van Basten e Rijkaard, a Juventus de Hässler, Baggio e Schillaci, o Napoli de Alemão, Careca e Maradona, sem falar na Sampdoria (campeã em 1991) de Cerezo, Mancini e Vialli. Eram tempos dourados no futebol italiano.

Depois de tanto esperar, foi mesmo na Itália que Matthäus conseguiu alcançar o maior objetivo de qualquer atleta. Disputando uma Copa do Mundo brilhante, derrotou a mesma Argentina que lhe fez sofrer quatro anos antes e ergueu a taça como capitão e líder de uma geração que atravessou altos e baixos até o triunfo maior.

O futebol ofensivo e a disciplina marcaram uma campanha excelente. Lothar não tinha feito menos do que os colegas. Marcou quatro gols até a decisão e certamente vibrou muito quando Brehme fuzilou Sergio Goycochea no pênalti que valeu o título mundial. O leão agora tinha o objeto que tanto desejou desde os tempos de garoto. Ao leão só restava a Liga dos Campeões.

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Foto: Hispavista

O ótimo preparo físico lhe permitia percorrer toda a extensão do gramado sem demonstrar um pingo de cansaço. Já aos 30 anos, foi recuando em suas funções no campo, mas sempre tendo papel vital nas suas equipes.

Mudando suas características de criador para um jogador de mais marcação e até como coringa, Matthäus foi um dos heróis da caminhada até o caneco da Copa UEFA em 1991, deixando o dele na vitória dentro do San Siro contra os giallorossi por 2-0. Na volta, a Roma descontou com Ruggiero Rizzitelli, porém o 1-0 não foi suficiente para tirar o título das mãos da Inter mais alemã de todas.

O retorno à Alemanha: mais e mais taças

Mais uma temporada no San Siro e Lothar se decidiu por voltar ao Bayern, onde encontrou tempo para ganhar mais títulos como o líder de um elenco fortíssimo. Veterano e com uma bela história no clube bávaro, O leão também foi soberano e adicionou mais quatro salvas de prata ao seu salão nobre, sem falar nas duas Copas da Alemanha e da Copa UEFA em 1996.

Das suas pernas saíam chutes que pareciam balas de canhão, os passes necessários para dar sequência aos ataques do Bayern e arrancadas incríveis por entre os adversários. Marchava como soldado e disparava como um tanque, sempre pronto para a guerra.

Mesmo sem marcar na decisão da Copa UEFA em 96 contra o Bordeaux, Matthäus teve papel defensivo fundamental ao coordenar todo o esquema de proteção aos colegas de zaga e na saída de bola. 2-0 em Munique e um 3-1 no Parc Lescure (atual Chaban-Delmas) deram o título europeu ao Bayern, que três anos depois experimentaria um doloroso revés contra o Manchester pela Liga dos Campeões.

O peso de um estigma

Super campeão da competição europeia secundária, ele precisava ainda mostrar que poderia conquistar a taça da LC e visivelmente foi um dos principais afetados pela incrível virada dos ingleses no Camp Nou. Inimigos íntimos do Manchester United na fase de grupos, os bávaros passaram em primeiro na Liga dos Campeões pela chave D, deixando o Barcelona com 8 pontos e fora das quartas de final. Dois empates contra os Red Devils demarcaram o equilíbrio nos duelos diretos.

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Matthäus consola Jancker após a derrota para o United no Camp Nou
Foto: Spiegel.de

O atropelamento no Kaiserslautern pelas quartas e a duríssima vitória contra o Dynamo Kiev davam toda a pinta de que o Bayern viria forte para enfrentar Ferguson e seus pupilos na decisão. 12 anos depois, era a chance de apagar o fantasma da derrota para o Porto em 87.

Com a bola rolando, Mario Basler abriu o placar numa falta venenosa e surpreendeu Peter Schmeichel. Ao abrir o placar na finalíssima de 1999 contra o United, o Bayern se comportou bem e não abdicou dos ataques, buscando o segundo gol a qualquer custo. No segundo trecho da etapa final, o título parecia próximo e os atletas alemães entraram em estado de auto preservação.

Substituído aos 35 do segundo tempo, Lothar assistiu do banco os três minutos mais cruéis da história do Bayern. Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskjaer viraram o jogo aos 46 e 48 minutos do segundo tempo, quando a torcida alemã já ensaiava a festa pela tão esperada conquista no torneio. O clima de velório tomou conta da delegação germânica, que ficou sem reação enquanto sentava no gramado procurando uma explicação para o apagão que custou caríssimo.

A volta por cima só veio contra o Valencia em 2001, nos pênaltis, o que não serviu como redenção para Matthäus, já aposentado. Não teve a oportunidade de coroar toda uma história no clube e viu seu sucessor Stefan Effenberg levantar o caneco. Effenberg, diga-se, era mais um do Bayern que teve histórico no Borussia M´gladbach antes de se consagrar em Munique.

Lothar se aposentou em 2000 vencendo a Bundesliga e a Copa da Alemanha, num adeus considerável para o excelente profissional que foi. Uma rápida passagem pelo NY Metrostars no segundo semestre encerrou sua carreira de 21 anos no futebol, no alto de seus 39 anos de idade. O legado? Ter sido espelho para os jovens que aprenderam com ele a não desistir em nenhuma dividida e sempre entrar com força máxima. Ninguém representava a escola alemã como o Leão de Erlangen.

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