O homem de gelo

Bergkamp teve a honra de alinhar ao lado de grandes atacantes na década de 1990 e não decepcionou. Muito bem no Arsenal e autor de belos e importantes gols, é ídolo das torcidas do Arsenal, Ajax, e de muitos holandeses que vibraram com o seu belo gol contra a Argentina em 1998

Para os gunners e os holandeses, ele é lembrado como “The Iceman”. Para Galvão Bueno, ele é o atacante que tem medo de avião. Considerado por muitos o maior jogador holandês a disputar a Premier League, Dennis Bergkamp foi um atacante técnico e frio que entrou na história tanto pelo seu talento quanto pela sua excentricidade.

Revelado pelo Ajax, onde trabalha atualmente como auxiliar de Frank de Boer, Bergkamp fez parte da reviravolta que aconteceu no clube na virada da década de 80 para 90. Sob o comando do ídolo e então treinador Johan Cruijff, o atacante subiu para o time principal e logo foi campeão da Recopa Europeia 1986-87.

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Foto: Simpkins 83

Cruyff viria a sair no ano seguinte para a sua outra casa, o Barcelona, mas deixava Bergkamp pronto para estourar nas temporadas seguintes. Foi ele que liderou a equipe na campanha do título holandês 1989-90 e da importante Copa da Uefa de 1991-92. Os títulos e os 122 gols com a camisa do Ajax chamaram a atenção da Internazionale, que desembolsou quase 20 milhões de euros pelo atacante.

Na Inter, apesar de mais uma Copa UEFA em 1993-94, Bergkamp não honrou o investimento e até virou opção do banco de reservas no time comandado pelo famoso (quem?) Giampiero Marini, o que não o impediu de ser convocado para a Copa de 1994, tendo marcado três gols, um deles na derrota “embala nenê” diante do Brasil por 3 a 2.

Com crédito na seleção, mas em má fase no clube, Bergkamp decidiu pegar as suas malas e o seu maço de cigarro Derby para tentar vingar em outro lugar. Ele poderia aceitar a proposta do Ajax e fazer parte da gloriosa geração dos irmãos De Boer, de Seedorf e de Litmanen que ganhou a Liga dos Campeões de 1994-95. Só que o Homem de Gelo não deixou ouvir o seu coração de torcedor. Partiu para o clube onde seria tão ídolo quanto nos Países Baixos: o Arsenal.

Construindo um ídolo

Contratado pela “modesta” quantia de 7 milhões de euros, Bergkamp desembarcou no velho Highbury a pedido de Bruce Rioch, o treinador que antecedeu o histórico Arsene Wenger no comando dos Gunners. Naquela época, classificação para a Copa UEFA era luxo, o que o camisa 14 conseguiu logo em seu primeiro ano.

Assim como a velha Londres, o Arsenal da época ainda não tinha nada de encantador na década de 1990. A equipe jogava em função do centroavante Ian Wright, o que obrigou The Iceman a se habituar definitivamente como garçom da equipe. A mudança no estilo de jogo do então centroavante seria determinante para demonstrar todo o talento escondido de Dennis Bergkamp.

Com a chegada de Arsène Wenger, na temporada 1996-97, Bergkamp virou o principal armador do time e foi o autor de 13 assistências durante aquela Premier League. O ótimo rendimento, aliado ao novo comando técnico, fez com que o Arsenal conseguisse o terceiro lugar do campeonato – a melhor campanha dos gunners desde a reformulação do campeonato nacional, em 1992.

Na temporada seguinte, sem Wright, Bergkamp voltou a jogar mais avançado e teve ainda mais sucesso: o Arsenal ganhou a sua primeira Premier League, e o atacante fez 22 gols, ainda ficando em terceiro lugar na eleição de melhor jogador do mundo da FIFA, atrás apenas do vencedor Ronaldo e do surpreendente Roberto Carlos.

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Foto: The Guardian

Um passo para trás

A Copa do Mundo de 1998 viria a marcar sua carreira por três motivos: pela segunda eliminação seguida para a Seleção Brasileira (novamente em uma partida épica e com narração igualmente inesquecível de Galvão Bueno) em Mundiais; pelo golaço contra a Argentina (leia mais abaixo) e pelo retorno à posição de atacante mais recuado, tornando-se praticamente um meia.

Aos 29 anos, Bergkamp precisou recuar para que coubesse também o então matador Kluivert, de apenas 22, na seleção de Guus Hiddink. Mais experiente, Bergkamp rendeu ainda melhor nessa função do que nas experiências anteriores. O rendimento inspirou Wenger a contratar no ano seguinte outro jogador jovem – e muito mais promissor -, para fazer dupla com o holandês: Thierry Henry. O que seria o início da história do melhor ataque da história do Arsenal.

Puzzle e touchdown

“É como resolver um puzzle. A posição dos jogadores está na minha cabeça, basta antever a jogada dois ou três segundos antes de a bola me chegar aos pés. É como se eu fosse um quarterback: tenho a bola nos pés, vejo uma série de jogadores a correr nesta e naquela direcção e escolho o mais bem colocado para o touchdown”. Assim definia Bergkamp a sua nova função na brilhante equipe do Arsenal formada por Arsene Wenger. Foi campeão da Premier League em 2001-02 e 2003-04 (a última de de forma invicta), da FA Cup em 2001-02, 2002-03 e 2004-05 e quatro vezes primeiro colocado da FA Community Shield 1998, 1999, 2002 e 2004.

Da mesma forma que envelhecia, o Homem de Gelo se mostrava cada vez mais cerebral em campo. Sendo um atacante de ofício, era espantosa a sua capacidade de lançar e deixar um companheiro frente à frente com um goleiro, o que muito beneficiou Henry, Ljunberg, Pires e até mesmo Vieira.

“Entre ouvir ‘que gol!’ ou ‘que assistência!’, preferia a segunda e ainda brincava com o autor do gol: “Bem, se não marcasse também…”, disse o atacante para o site português Ionline na mesma entrevista que saiu a definição do “puzzle”.

Mesmo tendo feito na história no Arsenal, faltou uma Liga dos Campeões. Quando quase chegou lá, em 2006, já estava prestes a se aposentar e nem entrou em campo na final contra o Barcelona. Viu do banco o seu time cair para o Barcelona por 2 a 1. Aquela foi a sua última partida oficial. Ou era para ter sido.

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Foto: Daily Mail

Gols para a história

Dois gols antológicos marcaram a carreira do Homem de Gelo. O primeiro deles aconteceu nas quartas de finais da Copa de 1998 na França.

Aos 44 minutos do segundo tempo, Argentina e Holanda empatavam por 1 a 1. Antes que o árbitro decretasse o fim da partida e mais 30 minutos de prorrogação, Bergkamp, após um lançamento primoroso de mais de 50 metros de Frank de Boer, fez o gol mais bonito do Mundial com apenas três toques. O primeiro foi o de domínio na grande área, o segundo tirou o zagueiro Ayala do lance e o terceiro, de bico, estufou as redes do indefeso Roa e garantiu os europeus na semifinal.

Já o segundo é para muitos, inclusive para o autor deste perfil, o mais bonito da história do futebol. O ano era 2002, o palco foi o St James’ Park e a vítima e dona da casa responde por Newcastle. Após o passe vindo da esquerda de Robert Pires, Bergkamp tirou o zagueiro grego Nikos Dabizas da jogada com um recurso até então jamais visto, uma espécie de drible da vaca de costas, que, de tão brilhante e inexplicável, sequer ganhou um nome depois. Como se não já bastasse a proeza da invenção, tal qual Pelé havia feito em Mazurkiewicz, Dennis honrou o apelido e ainda fez o gol com a frieza habitual de quem só se emociona a mais de 3 mil pés de altura.

Foi por medo de avião…

Não podemos falar de Dennis Bergkamp sem citar a sua fobia, já citada no início do texto na boca de Galvão Bueno. Pois é verdade. O Homem de Gelo treme até hoje quando está dentro de uma aeronave. Ele é uma vítima crônica da aerofobia, como é chamado popularmente o medo de voar.

Para conseguir voar até os Estados Unidos, em 1994, por exemplo, Bergkamp precisou ser dopado. Com a carreira consolidada. Arsene Wenger até aceitava que o seu atacante não viajasse para países muito distantes em partidas da Liga dos Campeões. Quando podia, o Homem de Gelo ia de trem, de carro ou de navio para os jogos, mas nunca de avião.

“A partir do momento em que deixei de andar de avião, eu me senti livre. Três dias antes de andar de avião já ficava nervoso, não dormia nada, e durante o jogo também pensava muito no voo. Parar de viajar pelo ar me fez bem. Ou era isso ou era uma terapia de meses, anos. A primeira opção era mais prática. No Arsenal, todos aceitaram. Estava no contrato”, confessa Dennis.

Torcedores do Ajax, holandeses de forma geral e gunners sempre assinaram embaixo essa cláusula, como se o sacrifício fosse o preço de ver o holandês em campo. Numa balança de compensação, o talento ainda valia mais do que alguns jogos fora de casa. Pois, com o Homem de Gelo em chão firme, eles sabiam: quem tinha medo eram os adversários.

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