Platini, um gênio forte

Platini revolucionou o futebol francês e colocou sua seleção no mapa dos grandes: se consolidar como profissional não foi fácil e após vários obstáculos, virou estrela mundial e dominou os anos 80 por Les Bleus e Juventus.

Muito cedo, os pais de Michel sabiam que ele seria uma criança diferente. Tímido, pouco falante e sempre com uma expressão concentrada, tinha um olhar ambicioso. Era como se o pequeno planejasse algo grandioso para o seu futuro.

Chutava uma bola desde moleque e demonstrava um trato especial à redonda. Gostava de conduzir a pelota, de carregá-la como se fosse um brinquedo, ignorava a presença dos marcadores e de repente achava um momento, uma fração de segundo para se livrar dela. E aí outro abençoado companheiro fazia bom uso. Dono de uma visão de jogo invejável, ele também sabia bater faltas como ninguém. O perigo que representava em bolas paradas era o terror das defesas adversárias, que pensavam duas ou três vezes antes de colocar o francês em condição de executar um tiro curto.

Também não era raro vê-lo driblando por aí. Fintava os adversários sem cerimônia. No fundo parecia bem fácil para Michel, rei na Europa durante os anos 1980, na transição que o futebol atravessou da coletividade para o talento individual. Poucos atraíam os holofotes como ele, que monopolizava as atenções do espetáculo com sua competência e classe, sobretudo por sua liderança.

O sucesso não veio antes de uma barreira cruel imposta pelo destino. Cobiçado pelo Metz (clube que torcia quando criança) após fazer boas atuações em torneios nacionais juvenis, falhou ao se apresentar duas vezes em testes da equipe grená: uma por lesão e outra por problemas respiratórios que quase lhe custaram a vida atlética. Passaram-se alguns meses e aos 17 anos, estreou pelo Nancy.

Seis anos depois estava na seleção da França, disputando o Mundial de 1978 na Argentina. Sem tempo de recuperação e preparação, não conseguiu apresentar um bom nível. Semanas antes havia sido campeão da Copa da França pelo Nancy e foi um verdadeiro fiasco na campanha francesa, que acabou ainda na primeira fase.

Contestado por sua torcida e pelo povo francês, precisou penar para mostrar o seu valor nos anos seguintes. Apesar da passagem vitoriosa pelo Nancy, onde atravessou rebaixamento, várias lesões em partes diferentes do corpo, Platini ainda teve de passar pelo Saint-Étiénne e ser campeão nacional por Les Verts. Em 1979-80, foi vendido e levou o time do Geoffroy-Guichard ao seu último campeonato da Ligue 1, em 81. Quase repetiu a dose na temporada seguinte, quando o troféu escapou para o Monaco de Bruno Bellone pela estreita margem de um ponto.

Consagração e reinado

A França tinha uma grande seleção em 1982. A derrota na semifinal para a Alemanha de Paul Breitner, Felix Magath e Karl-Heinz Rummenigge foi o primeiro indício de que Platini e seus colegas ainda fariam muito barulho. Já como capitão e aos 27 anos, vivia seu auge pela Juventus. Se na Espanha teve um sonho interrompido de conquistar a taça, dois anos depois levou Les Bleus ao título incontestável na Eurocopa, disputada em sua terra natal.

Artilheiro da competição em 1984, Michel balançou as redes em nove oportunidades. Campeão europeu também pela Juve no fatídico episódio da tragédia de Heysel, o meia não conhecia mais os limites do sucesso. Três vezes considerado o melhor jogador do mundo, em 1983, 84 e 85, bicampeão italiano, campeão da Liga dos Campeões, do Intercontinental e da Copa da Itália, Platini participou de um momento dourado do clube, que coincidiu com o seu auge. Era estrela maior da companhia, e que companhia era aquela esquadra bianconeri.

Antes que a decadência, aquela que atinge a quase todos os mortais fizesse de Platini mais uma vítima, ele se aposentou, em 1987. Não como outros gênios do esporte, que tiveram anos repletos de cinza, sem saber a hora de parar. O francês ainda jogou uma Copa exuberante em 1986 (novamente ficando pelo caminho da Alemanha, que por sua vez perdeu para a Argentina) e uma temporada que culminou num vice-campeonato da Serie A para o Napoli.

E assim se encerrou o ciclo de um meia que revolucionou e monopolizou as conquistas individuais de 1983 a 85. Permanecerá em eterna concorrência com Zinedine Zidane pelo posto de maior atleta que já vestiu a camisa 10 francesa. Para muitos da velha guarda, Michel leva vantagem. Já o careca, mesmo com uma melancólica despedida no peito de Marco Materazzi na final de 2006, tem uma Copa do Mundo no currículo, além da mesma Eurocopa (2000) e de um gol decisivo na Liga dos Campeões (2002 contra o Leverkusen).

Entretanto, o que parece pesar num possível duelo de Platini x Zidane é mesmo o histórico como político que o mais velho tem construído na presidência da UEFA. Tantas mudanças no cenário do futebol europeu certamente igualam a importância das façanhas que Michel fizera em campo nos anos 1980.

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