Centenários e superstições

Por Leonardo Dahi

Superstição em torno dos centenários de clubes suscitam várias discussões e teorias em mesas de bar. Há quem diga que no 100º ano, o time está amaldiçoado. Outros levantam a hipótese de proteção divina. Sabendo disso, resolvemos levantar alguns exemplos dos dois casos.

Por menos supersticioso que você seja, sempre vai olhar para as datas “cheias” de uma maneira especial. Aquela sensação de “já” ter 10 anos (dois dígitos!), ser, enfim, um quarentão, atingir a terceira idade, tudo isso deixa a comemoração de um aniversário ainda mais especial. Com os clubes de futebol, não é diferente. É muito raro alguma agremiação, em qualquer canto do planeta, não fazer do ano do Centenário, um ano diferente. Tem quem crie camisetas especiais, novos escudos e passe todo um ano em festa.

E o que seria ideal para um ano tão importante? Um título, claro. Um, não. Vários. Todos, se possível. Entretanto, essa é uma alegria que nem todos alcançam. Ao longo da história, enquanto uns tiveram ainda mais motivos para comemorar o primeiro século de existência, outros tiveram centenários que acabaram em tragédia, rebaixamento, entre outras tristezas.

As decepções foram tantas, que muito se fala em “maldição do Centenário”. Será que isso existe mesmo? Para responder a essa pergunta, selecionemos cinco clubes que, por motivos bastante diferentes, terão muitas recordações desta data.

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Foto: MSN Esportes

Vasco (1998) – Festa de janeiro a novembro

O ano de 1998 prometia ser muito especial para o Gigante da Colina. Não só por ser o do centésimo aniversário cruzmaltino, mas porque a fase era muito boa. Campeão brasileiro de 1997, o time comandado por Antônio Lopes vinha com credenciais para ganhar tudo o que disputasse na temporada. E foi exatamente assim que o ano começou.

Com cinco vitórias, um empate e uma derrota, a equipe de São Januário faturou a Taça Guanabara, primeiro turno do Campeonato Carioca. Com duas rodadas de antecedência, após uma vitória por 1 x 0 sobre o Bangu, presenciada por pouco mais de 1.200 pessoas em Moça Bonita, o Vasco venceu também a Taça Rio, sendo, assim, Campeão Carioca. Paralelamente ao título Estadual, o “campeão de terra e mar” (apelido que, aliás, virou verso de samba-enredo em homenagem ao clube, cantado até hoje pelos vascaínos) começava sua caminhada para aquele que seria, talvez, o título mais importante de sua história.

Após se classificar em segundo em um grupo com o Grêmio e os mexicanos do Chivas e do América, o Vasco foi para as oitavas da Libertadores, quando passou pelo então campeão Cruzeiro. Nas quartas, reencontro com o Grêmio e vaga garantida nas semifinais. Lá, classificação para a final após empatar em 1 x 1 com o River Plate, no Monumental de Nuñez. A busca pelo título inédito seria contra outro estreante em finais: o Barcelona de Guayaquil. Em São Januário, vitória por 2 x 0. Em Guayaquil, cinco dias depois do aguardado aniversário, o Gigante da Colina venceu por 2 x 1 e se tornou campeão da América pela primeira vez.

De férias no Brasileirão, o clube não chegou nem entre os oito, ficando assim, fora do mata-mata. Mas quem disse que sua torcida não comemorou? Um de seus maiores rivais, o Fluminense, passou por um vexame histórico ao ser rebaixado para a Série C. 98 só não foi perfeito para o cruzmaltino porque no primeiro dia de dezembro, o escrete vascaíno foi derrotado pelo Real Madrid, em Tóquio, por 2 x 1, deixando escapar o título Mundial.

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Foto: CNN

Real Madrid (2002) – Centenário regado a títulos

Outro time que tem muitos motivos para comemorar este ano tão especial é o Real Madrid. Em 2002, os merengues conquistaram nada menos que três títulos. O menos importante deles foi a Supercopa Europeia, conquistada após um 3 x 1 sobre o Feyenoord, no Stade Louis II, em Mônaco.

A taça mais importante, é claro, foi a da Liga dos Campeões. Após se classificar na primeira posição do Grupo A, que ainda tinha os italianos da Roma, os russos do Lokomotiv e os belgas do Anderlecht, os espanhóis foram para a Segunda Fase, onde, em um chaveamento relativamente simples – com Panathinaikos, Sparta Praha e Porto -, o Real avançou sem grandes dificuldades para as quartas de final.

Nesta fase, perderam para o Bayern por 2 x 1 na Alemanha e se recuperaram na Espanha. Com o placar de 2 x 0 no Santiago Bernabéu, conseguiram a vaga para as semifinais. O adversário? O maior rival, Barcelona. Diante de 98 mil pessoas, Zidane e seus colegas se sentiram à vontade no Camp Nou, para fazer 2 x 0 e se aproximar da final. A presença na decisão foi selada em casa, após um empate em 1 x 1. No caminho, outro alemão. Dessa vez, o Leverkusen de Ballack e Zé Roberto. Em Glasgow, os merengues venceram por 2 x 1 e chegaram ao topo da Europa pela nona vez, justamente no seu centésimo ano de história.

Para encerrar a temporada, uma vitória por 2 x 0 no Japão, deu o título Mundial ao Real. O adversário? Outro centenário que também teve muitos motivos para comemorar…

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Foto: Anotando fútbol

Olimpia (2002) – A vitória da experiência

Escondido em um Grupo onde o principal time era o Flamengo, os paraguaios do Olimpia iniciaram a Libertadores de seu centenário sem grandes ambições. Com um desempenho patético do rubronegro brasileiro, os paraguaios não tiveram muitas dificuldades para passar em primeiro, em um chaveamento que ainda contava com a Universidad Católica e o Once Caldas.

Nas oitavas de final, um empate em terras chilenas e uma vitória em Asunción fizeram com que o Decano passasse pelo Cobreloa. Nas quartas, o temido Boca Juniors, então bicampeão do torneio. Novamente segurando um empate como visitante, dessa vez na famosa Bombonera, o clube paraguaio conseguiu uma vitória por 1 x 0 no Defensores Del Chaco, chegando às semifinais. Uma vitória por 3 x 2 em casa e uma derrota por 1 x 0 fora levaram o duelo contra o Grêmio para os pênaltis, onde os paraguaios triunfaram por 5 x 4. O time que completaria 100 anos em poucos dias, disputaria o título com um brasileiro fundado menos de 13 anos antes daquela decisão: o São Caetano.

E um dia antes de assoprar a centésima vela do bolo, o Olimpia ganhou um presente de grego. Em casa, perdeu por 1 x 0 e viram o sonho do tricampeonato ficar distante. E a coisa piorou com 31 minutos do jogo da volta, quando o Azulão inaugurou o placar no Pacaembu. Entretanto, com dois gols no segundo tempo, o Rey de Copas forçou uma nova decisão por pênaltis. O gol de Mauro Caballero, quarto das cobranças de pênalti, calou boa parte da cidade de São Paulo que torcia pelo time do ABC. Decano tricampeão da América. Em dezembro, a já citada derrota para o Real Madrid impediu que esse ano se tornasse ainda mais especial.

Napoli (2004) – O fundo do poço

O Napoli, tradicional clube italiano, andava mal das pernas. Há muito tempo aquele time de Careca e Maradona estava só na lembrança de seus torcedores. Talvez o ano de 2004 reservasse alguma boa surpresa, já que era o do centenário do clube (na verdade, o Napoli só ganhou o nome atual, Societá Sportiva Calcio Napoli, em 1926, embora tenha sido fundado como Naples Foot-Ball Club & Cricket em 1904). No campo, os partenopei encerraram a temporada 2003-2004 da Serie B italiana em 14º, entre as 24 equipes. Porém, logo depois foi à falência, sendo, assim, rebaixado para a Série C1 do futebol italiano. Certamente uma das maiores humilhações de sua história, num ano emblemático.

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Foto: BOL

Coritiba (2009) – Tragédia no Couto

O Centenário coxa branca não começou lá muito bem. Além de não ser campeão estadual, viu o maior rival, Atlético, levantar a taça. Veio o segundo semestre e os alviverdes iniciaram o Campeonato Brasileiro com outro foco principal: a Copa do Brasil. Foram bem na competição, chegando nas semifinais, deixando a participação na final escapar por um gol, após uma vitória por 1 x 0 sobre o Internacional. Mas a grande tragédia da temporada viria mesmo é no Brasileiro.

A campanha não foi boa desde o início, mas ganhou contornos dramáticos nas rodadas finais. Em sua segunda temporada consecutiva na elite, os alviverdes corriam o risco real de voltar à Série B. A medida que o campeonato seguia, o risco aumentava. E quis o destino que a última partida fosse um confronto direto pela salvação. Em casa, contra o embalado Fluminense, que buscava concretizar o milagre que seria ficar na Série A. Só a vitória salvaria o time do Couto Pereira.

E ela não veio. O 1 x 1 decretou a queda dos paranaenses, o que já seria triste por si só. Para piorar, sua torcida ainda conseguiu agravar a situação, protagonizando uma das cenas mais tristes do nosso futebol. Vários torcedores invadiram o gramado, enquanto outros quebravam tudo o que viam pela frente. Um péssimo jeito de encerrar um ano que esteve longe de ser feliz…

Como se viu, essa história de “maldição” não se aplica a qualquer um que comemore seu centenário. Outros vão guardar grandes ótimas recordações. E tem muita gente na fila para conferir pessoalmente como é chegar aos 100 anos. Ano que vem, por exemplo, é a vez do Palmeiras. E aí, mais um capítulo deverá ser adicionado a essa controversa história.

Desafiando a maldição: dez outros times que comemoraram no ano do Centenário

Juventus – Campeonato Italiano e Supercopa Italiana (1997); Barcelona – Campeonato Espanhol (1999); Milan – Campeonato Italiano (1999); Bayern de Munique – Campeonato Alemão, Copa da Alemanha, Copa da Liga Alemã (2000); Lazio – Campeonato Italiano, Copa da UEFA e Supercopa da Itália (2000); Fluminense – Campeonato Carioca (2002); Boca Juniors – Copa Sul-Americana, Recopa Sul-Americana e Apertura Argentino (2005); Chivas – Clausura Mexicano (2006); Internacional – Campeonato Gaúcho (2009); Santos – Campeonato Paulista (2012).

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