Olmeta e a loucura debaixo das traves

Goleiro francês foi o antecessor de Barthez no Marseille campeão europeu em 1993, Olmeta tinha outras cartas na manga além do talento, além de ter mais boas histórias para contar do que o carequinha, que ainda causa arrepios na torcida brasileira por 1998 e 2006.

Pascal Olmeta deveria ser lembrado como um dos goleiros mais importantes da escola francesa em toda a história. Mesmo que seus feitos mais inesquecíveis não envolvam defesas ou frangos colossais, o francês de Bastia ganhou reconhecimento por dois fatores: sua irreverência inigualável e o fato de ter sido o predecessor de Fabien Barthez, o famoso carequinha que até hoje causa pesadelos nos torcedores brasileiros e sem dúvida é referência para os que jogam nesta posição na França.

Os anos 80 foram mesmo uma loucura. Quando Olmeta começou sua carreira, em 1981, pelo Bastia, o mundo era bem colorido, as pessoas ainda viviam na época do Disco, do vinil, do sapato plataforma, dos cabelos espalhafatosos. O menino que era um pouco tímido quando vivia no anonimato, passou a se soltar (até demais) nas primeiras temporadas como titular na equipe da Córsega.

E ele sabia se posicionar, sair do gol pelo alto e especialmente jogar com os pés, atributos essenciais para quem leva a vida só esperando a bola chegar perto, evitar que ela balance as redes. Três anos gastos no Armand Cesari e Pascal aceitou uma proposta do Toulon, que contava com o talento do semi-aposentado Delio Onnis, argentino e um dos maiores artilheiros do campeonato francês, por Stade de Reims e Monaco.

Logo a fama de Olmeta foi aumentando, e com o advento da metrossexualidade e de uma conduta que certamente atraía muito público, o guarda-metas fez da sua desenvoltura e bom humor como armas interessantes para conquistar a torcida. Aos poucos, as dancinhas no tiro de meta e a ousadia de carregar a bola até quase o círculo central foram virando rotina. De anônimo a estrela do espetáculo, fez o fardo de ser goleiro virar algo interessante de se acompanhar. Se a jogada não exigia participação dele, requebrava ou se aquecia, sempre com o intuito de chamar a atenção.

Em 1986, quando assinou com o Racing Matra, uma tentativa fracassada de elenco milionário, já era um dos nomes mais respeitados no país. Bem verdade também que a França demorou a revelar bons goleiros. Com a exceção de Jean-Luc Ettori e Joel Bats, titulares nas Copas de 82 e 86, não havia muita perspectiva e a rotatividade de convocação nas grandes competições era alta. Nem assim Olmeta ganhou sua chance, justamente por não ter sido levado a sério como merecia.

Enquanto isso, o Racing não ia a lugar algum. Na equipe titular, nomes como Sonny Silooy, Maxime Bossis, Pierre Littbarski, David Ginola e Enzo Francescoli, que certamente deve ter se arrependido de acreditar no projeto dos cartolas para o time parisiense. Nem um mísero título de Copa foi conquistado, e durante os quatro anos em que Pascal esteve por lá, as contratações exageradas não trouxeram nada além de frustração. Pouco depois, em 1989, o time foi rebaixado e nunca mais conseguiu retornar à elite.

A sorte foi que enquanto o Racing afundava, Olmeta dava bons passos. Em 1990 se envolveu em mais um projeto ambicioso. Desta vez, no Marseille de Bernard Tapie, ricaço francês que estava disposto a mover mundos e fundos para fazer o tradicional clube vingar. Três anos depois, conseguiu, ainda que com um asterisco, registre-se.

Bicampeão francês com o OM, Pascal só deu azar ao perder o bonde justamente no ano da conquista europeia, em 1993. Reserva de Barthez, promessa que veio do Toulouse, o maluco acabou ficando relegado e incomodado com a situação de ser deixado de lado bem na hora de colher os frutos.

Vencedores da Liga dos Campeões, os marselheses bateram o Milan na decisão e só tiveram seu esquema descoberto quando jogadores do Valenciennes revelaram uma tentativa de suborno (ler o post linkado no parágrafo acima). Titular na finalíssima europeia dois anos antes, quando os franceses sofreram uma derrota nos penais para o Estrela Vermelha, Olmeta passou muito perto de brilhar na decisão. Fato que só foi mesmo concretizado pelo seu colega Barthez, que ainda usava um penteado bem distinto da famosa carequinha.

De mudança para o Lyon ao fim da temporada 1992-93, o goleiro já havia conquistado de tudo dentro da França e estava no elenco que ergueu a taça da LC. Agora era mesmo só seguir em forma para encerrar de forma digna a carreira. Midiático, virou cantor pop. Fazendo um videoclipe no mínimo embaraçoso, o rapaz acabou se tornando sem querer um simbolo sexual francês. Quase um Jean-Claude Van Damme (e hétero) dos boleiros, Olmeta não foi muito além de um single chamado “Tape dans un ballon”. Por sorte, ele não insistiu no ramo e nos deixou apenas com uma peça de seu pouco talento musical. Veja o link grifado acima e tire suas próprias conclusões.

Personalidade forte e aptidão para o espetáculo

Outro aspecto interessante no personagem construído era o temperamento. Em 1995, a prova disso: o Lyon teve um jogo atípico diante do Lens. Com um frango de Pascal no primeiro tempo, os Gones foram obrigados a reagir e com presença constante do goleiro no campo de ataque e até desarmando os adversários. No fim, o 2 a 2 foi motivo de comemoração, mas no momento em que Olmeta se despedia da torcida no Felix Bollaert, um invasor (trajado de camisa do Arsenal) cuspiu e tentou roubar sua corrente. Imediatamente o camisa 1 partiu para cima e revidou com uma gravata e alguns socos. A cena foi o reflexo do showman que poderia virar um galo de briga em questão de segundos.

Amigo pessoal de Éric Cantona, Pascal participou da despedida do atacante do Manchester United, em 1997, no Old Trafford. Jogando contra uma equipe de estrelas contra os Red Devils da época, o guarda-metas aprontou das suas. Saiu jogando até a linha de fundo dos ingleses e quando tentou um drible, foi desarmado e se jogou no chão, ao lado da bandeirinha de escanteio. Aplaudido pelos presentes e arrancando até um sorriso sincero de Alex Ferguson, brilhou pela última vez em campo. Cantou e dançou para a torcida, fazendo sua graça na baliza do Teatro dos Sonhos.

Ainda somou passagens pelo Espanyol e pelo Gázelec Ajaccio (voltando à Córsega), se aposentando em 1999. Para quem pensava que ele nunca jogaria uma Copa do Mundo, Olmeta surpreendeu. Em 2001, disputou o Mundial de futebol de areia e foi vice-campeão na decisão contra Portugal, fora o prêmio de melhor goleiro da competição.

Desde então, não se viu nada parecido no futebol. Talvez Jéremie Janot, que até se vestia de Homem Aranha nos seus tempos de Saint-Étiénne. Se Barthez foi o precursor da escola de goleiros franceses carecas de camisa 16, bem… Olmeta foi pioneiro nas maluquices e no carisma, no futebol arte, moleque, danço y me voy.

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