Cantona, o rei da encrenca

Por Felipe Ferreira

Meio-campo de enorme sucesso, Eric Cantona consagrou-se como um dos maiores ídolos da história do Manchester United; Além de jogar futebol, o francês mostrou que sabe também atuar no cinema, lutar kung-fu, filosofar, cornetar e polemizar.

Nascido na cidade de Marseille no ano de 1966, Cantona chegou a base do Auxerre com 15 anos. Inicialmente jogando como meia, o jogador ganhou fama desde cedo como um futebolista com garra para dar e vender, sem contar uma incrível capacidade para decidir jogos. Seu nível técnico era tão grande que, ao começar como meia, consideraram um desperdício de talento ele jogar longe do gol e não tardaram para escalar o então jovem atleta como atacante.

Seu começo no clube francês não foi dos melhores. Em sua primeira temporada no profissional, com 17 anos, Eric não apareceu tão bem pois no ano de 1984 prestou serviço militar e, um ano depois, foi emprestado ao Martigues, clube da segunda divisão francesa, acumulando o ritmo e a experiência necessária para voltar ao Auxerre conseguindo mostrar toda sua habilidade, que o levou a ser convocado para a seleção francesa princesa e também para a sub-21, que sagrou-se campeã da Eurocopa da categoria em 1988.

Cantona Auxerre

Foto: Old School Panini

Além de toda habilidade, o atacante mostrou nesses primeiros anos jogando na elite francesa o seu temperamento forte, que viria a ser bastante marcante em sua carreira, ao agredir Bruno Martini, seu companheiro de equipe, e ser suspenso após uma duríssima entrada em Michel Der Zakarian, durante jogo contra o Nantes.

Mesmo que Cantona estivesse colecionando problemas disciplinares, o Olympique de Marseille decidiu pagar 3 milhões de dólares, quantia exorbitante na época, pelo atacante, que não convenceu e seu momento alto no clube foi quando chutou a bola contra a torcida em um amistoso diante do Torpedo Moscou e foi suspenso por um mês. Além disso, pouco tempo antes, o atacante fora a um programa de TV e criticara (lembra que dissemos que ele sabia muito bem cornetar?) o técnico da seleção francesa, o que o levou a ser suspenso das convocações dos Bleus por um ano.

Depois de tanta confusão, a melhor decisão encontrada pelo clube de Marselha foi emprestar o pupilo para o Bordeaux e, posteriormente, para o Montpellier, onde atirou suas chuteiras contra seu companheiro Jean-Claude Lemoult.

Cantona Marseille

F0to: Hitos deportivos

O período em que passou longe do Olympique fez bem para Cantona. Mesmo que quando ele tenha voltado alguns jogadores teriam pedido a dispensa do atleta, o atacante aproveitou-se dessa segunda oportunidade para mostrar todo o futebol que esperavam que ele mostrasse, no entanto, as polêmicas não acabaram. O técnico Raymond Goethals chegou ao clube e não se entendeu também com a promessa francesa, tanto que o deixou de fora da final da UEFA Champions League 90/91, jogo que o Marseille acabaria derrotado pelo Estrela Vermelha nos pênaltis.

Diante da conturbada relação com Goethals, Cantona sagrou-se bicampeão nacional (foi campeão na temporada 1988/89, embora não tenha tido uma participação tão grande) na mesma temporada que foi vice da Champions e deixou Marselha ao fim da mesma, rumando para o Nimes, equipe sem muita tradição.

No pequeno clube francês, o atacante teve boas atuações, mas foram ofuscadas devido ao polêmico episódio de dezembro de 1991, quando, em um acesso de raiva, atirou a bola contra o árbitro em jogo do Campeonato Francês. No julgamento do caso, xingou cada um dos que o puniram e, como prêmio, ganhou mais uma suspensão da entidade que rege o futebol na terra da Torre Eiffel.

A severa punição atrapalhou muito Eric que, depois de punido, chegou a anunciar aposentadoria, todavia, o corpo diretivo da Federação Francesa de futebol impulsionado pelo técnico da seleção francesa, o saudoso Michel Platini, decidiu em convocar o jogador para a Eurocopa de 1992, torneio que contou com grandes atuações do atacante, fazendo-o repensar quanto a pendurar chuteiras, algo vital para a reviravolta que sua carreira teria.

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Cantona United

Após ir muito bem na Euro, Cantona atravessou o Canal da Mancha e foi para a Inglaterra, com o objetivo de buscar novos ares na sua carreira defendendo o Leeds e a epopeia nos Whites foi muito bem-sucedida. Com assistências decisivas para Lee Chapman e hat-tricks memoráveis contra Liverpool e Tottenham, o atacante não ficou muito tempo na equipe, mas o bastante para conquistar um Campeonato Inglês e uma Supercopa da Inglaterra, além de escrever seu nome na história do clube.

As grandes atuações nos Peacoks chamaram a atenção de Alex Ferguson que decidiu levar o francês para o Manchester United e seria em Old Trafford que Cantona transformar-se-ia em King Eric e viveria o melhor momento de sua carreira.

Trajando a mística camisa 7, eternizada por George Best, o atacante foi um dos símbolos da retomada das grandes glórias por parte dos Red Devils na década de 90. Tamanha importância já começou a se desdenhar na primeira temporada do jogador, que comandou a equipe a uma enorme reação, culminando no título inglês da temporada 92/93, conquista que há décadas que o clube de Manchester não conquistava.

A segunda temporada foi ainda mais marcante, tanto dentro como fora dos gramados. Além do bicampeonato inglês, Cantona levou o United ao título da FA Cup, com direito a dois gols na final. Em meio às glórias, o atacante também acumulava expulsões e polêmicas, como uma cusparada em um torcedor do Leeds, seu ex-clube, e o fato de ter sido preso depois de uma briga de bar.

Chega o ano de 1995. Depois de tantas confusões, é difícil pensar em alguma coisa que Cantona não fez e que seja pior do que todas as confusões já armadas pelo jogador, mas o francês chega ao ponto alto de suas polêmicas quando, em meio a um jogo contra o Crystal Palace, ele é expulso e se dirige imediatamente aos vestiários, mas um torcedor rival xinga o atleta do Manchester United, que não titubeia, mostra suas habilidades no kung fu e desfere uma voadora de dar inveja em Bruce Lee, Anderson Silva e Steve Seagal no rapaz que estava sentado na arquibancada.

O ato violento levou o atacante a julgamento que o obrigou a ficar 9 meses longe dos gramados. Depois da determinação da sanção, Cantona foi convocado para conceder uma entrevista coletiva, que acabou durando questão de segundos graças ao fato de que o jogador colocou em cena seu lado filósofo e apenas declarou: “Quando as gaivotas seguem o barco dos pescadores é porque pensam que sardinhas serão atiradas ao mar”.

Embora seu grande jogador estivesse suspenso e desse razões claras para que a atitude em questão não fosse tomada, os diretores red devils decidiram em renovar com o francês, que, passada a suspensão, ainda viria a conquistar mais duas Premier Leagues e mais uma FA Cup, com direito a marcar o tento do título.

Em 1998, o ultimato foi dado. Pelo fato de Cantona ter agredido um repórter, o então técnico da seleção francesa, Aimé Jaquet, decide em não convocar o atacante para a Copa do Mundo daquele ano. Infeliz com essa situação, o atacante decide encerrar a sua brilhante carreira marcada por muitas glórias dentro de campo, mas também por uma enorme quantidade de polêmicas seja nos gramados ou fora deles.

Aposentado, o francês decidiu apostar em outra carreira: a de ator de cinema. Com experiência de já ter participado de filmes mesmo quando jogador, Eric alcança o ápice nas suas aventuras cinematográficas com o longa “Looking for Eric”, em que ele interpreta a si mesmo em meio a um brilhante retrato de sua passagem por Old Trafford.

Longe dos gramados, um dos grandes ídolos do Manchester United ainda tentaria a sorte nas areia, onde se sagrou campeão mundial de futebol de areia sendo jogador e técnico da seleção francesa. Atualmente, Cantona é diretor do lendário New York Cosmos e sempre ocupa manchete dos jornais seja com polêmicas declarações, como quando questionado sobre quem era melhor Platini ou Zidane e ele apenas respondeu eu, ou com cornetadas a atual seleção francesa.

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