Laudrup, uma questão de genética

Michael Laudrup ainda é para muitos o melhor jogador da história de seu país: campeão por onde passou e grande capitão da melhor Dinamarca já vista nas Copas de 86 e 98, o meia teve sua melhor fase no Barça, apesar de ter uma boa história para contar do outro lado da rivalidade, pelo Real Madrid.

Um dos atletas mais famosos (e subestimados) do futebol moderno atende hoje por Professor Laudrup, no banco do Swansea City. Dono de um passado dos mais gloriosos, além de duas polêmicas com treinadores, Michael Laudrup é tido por muitos como o melhor jogador dinamarquês da história. Em títulos, essa afirmação pode ser considerada verdadeira, mas a importância dele é comparável com a de Allan Simonsen, indispensável em discussões nesse sentido.

Poucas famílias no futebol tem tantos integrantes consagrados no futebol como os Laudrup. A linhagem dinamarquesa começou a se consolidar no esporte com Finn Laudrup, nas décadas de 1970 e 80, pelo Brondby e Wiener SC. O vovô Finn foi o precursor do brasão Laudrup e pouco depois a sua aposentadoria, em 1981, o seu filho Michael já fazia suas primeiras partidas pelo KB, aos 17 anos.

O menino parecia ter herdado o talento do seu velho, mostrando personalidade no meio-campo. Muito técnico e explosivo, sempre encontrava espaços que ninguém enxergava ou criava oportunidades em frações de segundo, num tempo que parecia uma eternidade, tamanha calma que ele tinha para orquestrar seus movimentos. Exímio passador e driblador, fez sua carreira toda baseada nesses atributos.

Três anos passados em sua terra natal, sendo um pelo KB e dois pelo Brondby, Michael alçou voo para a Serie A italiana, que vivia seus melhores dias, com os maiores craques do mundo. Comprado pela Juventus e emprestado para a Lazio graças ao limite de estrangeiros (Platini e Boniek preenchiam a cota), em 1983, chamou a atenção pelo fino trato que dava à bola. A transação aconteceu meses antes dele disputar sua primeira competição de grande magnitude, a Eurocopa de 1984, na França. Avançando até a semifinal, a Dinamarca deu seu primeiro aviso como grupo promissor. Dois anos depois, uma rápida e assombrosa ascensão tomaria lugar no Mundial do México.

100% de aproveitamento no grupo E. Três vitórias sobre Escócia, Alemanha e Uruguai, esta com requintes de crueldade: 6 a 1 e um hat-trick de Elkjaer. A surpresa envolvendo os nórdicos naufragou da mesma forma impactante quanto a goleada nos uruguaios. 5 a 1 para a Espanha de Butragueño, nas oitavas de final.

Mesmo sem a principal taça conquistada pelo seu país, Michael já tinha carreira consolidada. Após saída da Lazio, em 1985, partiu para a Juventus de Platini e logo de cara emplacou um Mundial Interclubes em 1985, além da Serie A em 1986, já como titular absoluto dos bianconeri. Auxiliando todo o serviço de Platini na meia cancha, Laudrup encerrou sua passagem de quatro anos em Turim sendo vendido ao Barcelona, dizendo ter caído em desprestígio em meio a um elenco fraco, em 1989.

Dream Team, birra com treinador e traição

Contratado pelo Barça de Johann Cruyff, a premissa dos blaugrana era conquistar o mundo em curto espaço de tempo. De 1989 a 1995 o holandês cumpriu o que prometeu e colocou os culé no mapa do tesouro na Europa. Campeões da Copa do Rei em 1989/90 e quatro vezes da Liga espanhola de 1991 a 1994, era impossível parar a formação que ficou mais conhecida como Dream Team, que teve craques como Stoichkov, Ronald Koeman, Hagi, Romário, Bakero, Begiristain, Goikoetxea, Amor, Witschge, Nadal, Alexanko, Ferrer, Zubizarreta, Guardiola, Salinas, entre outros.

Nas palavras do amigo Marcelo Bechler, @marcelobechler: “Ele era fundamental pra fazer o time variar do 4-3-3 pro 3-4-3. Trazendo pros dias de hoje, teria uma função tática muito parecida com a do Fábregas – inclusive pela falta de velocidade, muitas vezes. Foi talvez o primeiro “falso 9″ do Barcelona. Salinas e Txiki Begiristain costumavam ser os pontas e Laudrup aparecia como centroavante, mas saindo da área pra jogar ao lado do Stoichkov. Na final de 92, o búlgaro jogou mais avançado, abrindo espaço pelos lados e Laudrup armava no meio e aparecia na área.”

Em 1992, levantou o primeiro caneco europeu do Barça, numa final dramática diante da melhor Sampdoria de todas. Do lado italiano, alinhavam nomes como Pagliuca, Vierchowod, Katanec, Mannini, Bonetti, Lombardo, Cerezo, Vialli e Mancini, treinados pelo lendário Vujadin Boskov.

O auge de Laudrup poderia muito bem coincidir com o maior pico alcançado pela sua seleção. Na sequência de uma boa Copa em 1986, o fenômeno danês ainda cresceria mais, seis anos depois, ainda que sem Michael e Molby, que alegavam fortes divergências com o treinador Richard Moller Nielsen.

Vencendo a Eurocopa em 1992, a seleção escandinava entrava para a história como a Dinamáquina. O detalhe é que se não fosse a sanção que determinou a exclusão da Iugoslávia (em pleno estado de guerra civil) do torneio, a Dinamarca não teria disputado a Euro na Suécia. Michael e Jan certamente reavaliaram o fato de não estarem no grupo vencedor e até hoje responsável pelo maior título da nação.

A vingança de La Manita

Laudrup humilha Barça

Foto: iTV

Já bem experiente, Laudrup foi parar no Real Madrid em 1994-95, graças a um desentendimento com Cruyff. Afinal, seu relacionamento com os treinadores nunca foi lá tão bom. Se na temporada anterior o Barça havia conseguido um 5-0 histórico conhecido como “La Manita”, em 1995 o troco veio a cavalo. No Superclásico de 1994, Romário marcou três vezes e afundou os merengues no Camp Nou.

Um ano depois, o troco viria com o dinamarquês do outro lado, sedento por vingança. Desta vez, em 6 de janeiro de 1995, os madridistas devolveram a humilhação e com hat-trick de Zamorano, desmoralizaram o melhor time do país na ocasião.

Mais discreto do que em qualquer outra passagem, Michael foi tentar erguer o futebol no Japão, pelo Vissel Kobe, em 1996. Para encerrar de vez o ciclo, o dinamarquês aceitou uma proposta do Ajax em 1997, que ainda vivia seus anos dourados com Van der Sar, Blind, Witschge, Frank e Ronald de Boer, Litmanen e Hoekstra. Na Amsterdam Arena, venceu a Eredivisie e a KNVB Beker, só para não perder o costume.

Uma despedida para ninguém botar defeito

Sua última participação em grandes campeonatos foi na Copa do Mundo da França, em 1998. No grupo dos donos da casa, a Dinamarca passou aperto, mas foi para a segunda fase. Atropelando a Nigéria por 4-1 nas oitavas, o grande desafio escandinavo viria contra o Brasil, em Nantes. Um excelente duelo no Stade de la Beaujoire, que ficará na memória de muitos como grande atuação de Rivaldo e claro, um enorme susto na torcida brasileira.

Aos 2 minutos, Jorgensen abriu o placar para os daneses, que saíram para o ataque quase que de forma imediata. Bebeto empatou com um chute certeiro no cantinho de Schmeichel, numa jogada de contragolpe feroz do Brasil. Ronaldo, que já havia dado um passe certeiro para Bebeto, abriu espaço para Rivaldo carregar e bater por cima do goleiro, fazendo o 2-1. Destaque para o desarme de Dunga em Helveg, que dormiu no ponto e entregou uma ofensiva para o adversário.

Na volta do intervalo, a Dinamarca estava com a faca entre os dentes. Roberto Carlos exagerou no talento ao tentar afastar uma bola de bicicleta, pegou mal e sobrou logo nos pés de Brian Laudrup, que esperou o quique e mandou uma bomba no alto de Taffarel. Rivaldo, sempre ele, acertou um tiro no canto da meta do grande Schmeichel, que novamente não alcançou, 3-2. De tirar o fôlego, o duelo era a despedida ideal de Michael, que aos 34 anos já havia ganho quase tudo que um atleta de alto nível poderia desejar.

Mas nem por isso o nome Laudrup deixou de aparecer no futebol. Brian se aposentou dois anos depois, pelo mesmo Ajax. Nicolai, filho de Brian, é de longe o menos famoso, apenas com uma passagem pelo Lyngby em 2010. Mads teve início promissor no Kobenhavn, mas já está perdido na segunda divisão dinamarquesa, pelo Hobro. Andreas parece estar bem encaminhado, emprestado pelo Nordsjaelland ao Saint-Étiénne. O velho Finn deve estar mesmo orgulhoso pelo que contribuiu para o futebol de sua terra…

1 pensamento em “Laudrup, uma questão de genética”

  1. Laudrup. Um dos primeiros grandes jogadores que vi jogar.

    Tinha uma época que comecei a ver fut internacional. Tinha uns 6 anos… geralmente só dava pra ver quando o quando a TV fica disponível pra mim. Era difícil. Eu queria ver pelo menos o “futebol no mundo” da Espn.

    Laudrup e esse time do Barcelona foram uma das primeiras coisas que me fizeram ter gosto pelo esporte. Era divertido de ver, inesperado, criativo.

    Hagi, Laudrup, Litmanen. Jogadores de seleções menores, mas muito bons. Que me fizeram ter empolgação com o 10 criativo. Não aprendido a gostar do futebol de velocidade, só de jogador rápido. Tinha o Bergkamp tb, leeeento. Mas excelente.

    Tenho 25 anos, mas a Copa que mais lembro (De resultados, dos jogos, dos gols) era a de 94. Bons tempos aquele de barganhar o horário na TV pra poder ver jogo itnernacional.

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