Conti, o filho de Nettuno

Conti era a principal prata da casa da Roma na década de 1980, quando a equipe giallorossa duelou entre os grandes italianos. Ponta esquerda dos mais elétricos, Bruno Conti foi um dos pilares da era mais gloriosa da história da Roma, que entre 1980 e 1991 venceu uma Serie A e cinco Coppa Italia. Nascido em Nettuno, nas adjacências da capital, foi símbolo de uma geração quase toda revelada no Olímpico. Rápido, habilidoso e letal, encantava até mesmo os seus rivais com o seu estilo arrojado de jogo.

Iniciando sua carreira profissional em 1973, ele jogou na Roma por duas temporadas, mas nunca conseguiu convencer. Sem se firmar, partiu por empréstimo para o Genoa, que estava na Serie B. Pelos grifoni, Conti teve boa sequência e ajudou a equipe a retornar à elite do futebol italiano, acumulando boas atuações e começando a aparecer como promessa. Voltou assim à Roma em 1976 gerando muita expectativa. Com um time fraco, no entanto, os giallorossi não conseguiram fazer boa campanha nos campeonatos de 1976-77 e 1977-78, terminando ambos no meio da tabela. A má fase romanista afetou também o futebol de Conti, que não conseguiu se encontrar na formação titular e acabou voltando para o Genoa, em 1978, novamente por empréstimo.

Desta vez, a passagem por Gênova foi curta e Conti foi devolvido à Roma já em 1979. Sob o comando técnico de Ferruccio Valcareggi, o time agora contava com Tancredi, Di Bartolomei, Ancelotti e Pruzzo. Logo na temporada da volta de Conti à Serie A (no campeonato de 1979-80), a equipe não foi muito longe e terminou em um desanimador sétimo lugar. A competição, contudo, serviu como fase de amadurecimento para a Roma, que na temporada seguinte foi atrás de alguns bons talentos para compor o seu elenco. A conquista da Coppa Italia no final daquela temporada, contra o Torino, nos pênaltis, mostrou o que a Roma poderia fazer.

A chegada de Falcão ao Olímpico foi crucial para o início de uma fase inesquecível. Conti agora era referência no grupo romanista e sua presença na ligação entre o meio e o ataque foi providencial na campanha do vice-campeonato italiano em 1981, apenas dois pontos atrás da líder Juventus. Após anos sem incomodar, a Serie A de 1981-82 representaria a consolidação da Roma como competidora ao scudetto durante quase toda a década de 80. Nesse meio tempo, o Mundial da Espanha em 1982 serviu para colocar o nome de Conti na galeria dos maiores craques italianos com o título da squadra azzurra.

Após a derrota para a Itália na semifinal, Falcão e Zico disseram que estava difícil competir com o meio-campo italiano naquela tarde de 5 de julho de 1982 em Barcelona. Antognoni, Oriali, Tardelli e Conti de fato não deram espaço para os brasileiros em nenhum momento. O próprio Falcão, conhecedor das principais artimanhas de Conti, seu companheiro de clube, reconhecia que o pequeno era um jogador difícil de ser parado ou desarmado. E assim se fez até a caminhada para o título, com direito a assistência do romanista para o terceiro gol da finalíssima diante da Alemanha.

Dominar o mundo pela seleção foi o maior feito de Conti em sua carreira. Mas ainda lhe faltava ser campeão italiano. Na sequência do tricampeonato mundial pela Itália, a Roma voltou às manchetes com o seu segundo scudetto, conquistado em 1983 com quatro pontos de vantagem sobre a arquirrival Juventus. O título também credenciou os romanistas a participarem da Copa dos Campeões. De pronto, os pupilos de Nils Liedholm, o Barão, alcançaram a fase final. Passando por Göteborg, CSKA Sofia, Dynamo Berlin e Dundee United, a Roma teria um último desafio em pleno Olímpico, contra o temível Liverpool.

A derrota veio de forma cruel e até hoje as cicatrizes daquele fatídico 30 de maio de 1984 são visíveis no sentimento do romanista. O 4 a 2 para os ingleses na decisão (Conti perdeu a sua cobrança, para alegria de um Grobelaar dançante e que testou os nervos dos italianos debaixo da meta) selou a maior e mais dolorosa derrota da história do clube italiano. Dez anos depois, na mesma data, o capitão romanista Di Bartolomei se suicidou com um tiro no peito, na cidade de San Marco di Castellabate, nunca tendo superado o dia inglório em que viu a taça da Europa ser levantada por outra equipe que não a sua.

A última glória enquanto Conti ainda reinava absoluto foi a rotineira Coppa Italia, em cima da Sampdoria, em 1991. Alguns dias depois a Curva Sud faria sua última saudação ao jogador, a lenda que por tanto tempo vestiu a camisa 7 giallorossa. O 23 de maio de 1991 ficou conhecido pelos lados de Roma como o Bruno Conti Day.

Após a aposentadoria e, até os dias de hoje, Bruno Conti trabalha na Roma: foi treinador de equipes de base e também coordenou o setor juvenil. Em 2004-05, em um dos momentos mais complicados da história recente da Roma, foi o quarto treinador da equipe principal na temporada, e conseguiu levar a equipe à Copa UEFA através do vice-campeonato da Coppa Italia. Depois, voltou a comandar as categorias de base. Uma de suas maiores decepções certamente é ver seu filho, Daniele Conti, marcar gols contra a Roma sempre que a enfrenta. Daniele foi formado em Trigoria, mas nunca teve chances suficientes, se consolidando no Cagliari.

Alguns podem dizer que foi mero coadjuvante de outras estrelas de sua época, que nunca teve as glórias mais desejadas pelo seu clube. Sobre Conti, um certo craque brasileiro proferiu as seguintes palavras: “Ele é o mais forte dos que vi neste Mundial (da Espanha em 1982), é o verdadeiro brasileiro desta Copa. Penso que nunca nascerão mais jogadores como este”. Fosse qualquer fulano por aí, a oração não faria tanto sentido. É bem verdade que Pelé já errou em muitos pitacos dados, mas neste em especial, o Rei do futebol foi certeiro.

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