O mestre Béla Guttmann e a maldição benfiquista

Técnico húngaro caminhava para vencer tudo com o Benfica, pediu aumento e não foi atendido pela diretoria, pedindo demissão: a resposta veio em forma de maldição que assombra os torcedores encarnados até hoje.

Béla Guttmann foi um dos maiores treinadores que o futebol já viu, além de ser um dos mais icônicos. Técnico de clubes como Benfica, Honvéd, Milan, Porto, São Paulo, Peñarol, entre outros, o húngaro é protagonista de uma das histórias mais interessantes do esporte. Tudo isso no que concerne o jogo de bola e o sobrenatural.

Campeão Húngaro com o Ujpest, Paulista em 1957 com o São Paulo, Português com o Porto em 1959, Béla já era um técnico renomado internacionalmente, com outras passagens bem sucedidas por grandes europeus. Sua chegada ao Benfica, em 1960, reservava grandes feitos pela equipe lisboeta.

Recebendo um alto salário para o que prometia fazer na direção dos Encarnados, Guttmann sabia que poderia conduzir o Benfica à glória. Demitindo cerca de 20 atletas do plantel profissional logo no dia de sua chegada, deixou claro que mudaria muita coisa no Estádio da Luz.

E assim foi com auxílio do gênio Eusébio e de seus companheiros Coluna, Calado e Saraiva. Bicampeão europeu em 1961 e 62, o escrete do ganancioso húngaro havia se tornado um dos grandes esquadrões de todos os tempos. Na ocasião, o bicho pela conquista foi muito maior para Béla do que para todo o restante do elenco benfiquista.

Atropelando Barcelona e Real Madrid em finais continentais, Guttmann queria mais. No momento em que desembarcou em Lisboa, foi recebido por autoridades locais e envolto num clima de festa, chegou no ouvido do presidente do Benfica, Antonio Carlos Cabral Fezas Vital e pediu novo aumento. A requisição caiu como uma bomba para o dirigente, que de imediato recusou, para futuro lamento de toda uma nação torcedora dos Águias.

A partir deste momento, todo o futuro da agremiação lisboeta seria alterado. Uma sentença que é relembrada até hoje em sua forma literal, causa calafrios em quem vive a paixão benfiquista no dia-a-dia. Béla se demitiu imediatamente e teria dito após a recusa que “Nenhuma outra equipe portuguesa será bicampeã europeia e o Benfica sem mim jamais ganhará uma Copa dos Campeões nos próximos 100 anos”. O blefe soou como birra do húngaro, mas ganhou contornos de maldição conforme o tempo passava.

26 anos depois, lá estava o Benfica em uma nova decisão continental. O adversário era o PSV de Ronald Koeman, Wim Kieft, Eric Gerets e Gerald Vanenburg. O empate no tempo normal levou o duelo às penalidades, vencidas pelo lado holandês, 6-5. Veloso desperdiçou sua cobrança e os rapazes de Eindhoven se sagraram campeões da Europa em 1988.

Entretanto, o sofrimento não acabaria ali. Para a finalíssima da Copa dos Campeões de 1990, diante do Milan, Eusébio tentou aliviar o mau agouro e visitou o túmulo de Béla, falecido nove anos antes. O grande ídolo encarnado chorou sob os restos mortais do seu ex-técnico e pediu que de alguma forma, a alma do comandante retirasse os dizeres de 1962. Fosse tão fácil apenas desfazer uma maldição e vencer o poderoso Milan de Rijkaard, Gullit e Van Basten, tudo não passaria de uma infeliz coincidência na história do clube. E é numa ocasião dessas que o folclore do futebol, o imaginário, a fantasia e até mesmo o sobrenatural entram em campo.

Rolou a bola no Praeterstadion (atual Ernst Happel), e o Milan levou o caneco por 1-0, gol de Rijkaard, aos 68. Não era uma tarefa qualquer bater aquele super time de Arrigo Sacchi, sobretudo com a lembrança de Guttmann para assombrar as chances benfiquistas de voltar ao topo.

E assim caminhamos para mais 49 anos do prazo estabelecido por Béla. Será que é pura coincidência ou as forças do além ainda exercem algum efeito no Benfica quando é decisão?

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