Careca, o judiador de goleiros

Por Felipe Ferreira

Por ser fã do palhaço Carequinha, Antônio de Oliveira Filho virou Careca; E foi com este apelido, que o rapaz consagrou-se como um dos maiores atacantes do futebol brasileiro ao mostrar-se extremamente veloz e, sobretudo, habilidoso.

Nascido em Araraquara, no ano de 1960, Careca mostrou desde cedo ter uma habilidade acima da média. Com 15 anos, já colecionava a primeira glória de uma grandiosa carreira que estava por vir: em uma peneira, realizada em sua cidade, o garoto fora selecionado para integrar as categorias de base do Guarani e dar os primeiros passos rumo a transformar em realidade o sonho de se tornar um craque do futebol.

No ano de 1978, a promessa começava a transformar-se em realidade. Até então com 18 anos incompletos, o atacante era promovido ao time profissional do Guarani e logo em sua primeira temporada no time de cima, sagra-se campeão brasileiro, sendo vital para o histórico feito do Bugre ao provocar a expulsão do goleiro Emerson Leão no jogo de ida da final contra o Palmeiras. Fora toda essa importância, marcaria também o gol do título na volta.

A épica conquista em 78 significava apenas o começo da carreira de um dos mais brilhantes camisas 9 que o futebol brasileiro já teve. Depois de ter sido campeão brasileiro, Careca seguiu no Brinco de Ouro, marcando cada vez mais gols e chamando a atenção não só de grandes clubes brasileiros e estrangeiros, como também do técnico Telê Santana, que convocou o atleta para defender o selecionado canarinho e só não o levou para integrar o plantel da equipe de 82 pelo fato de que o ídolo bugrino precisava tratar-se de um problema físico.

No ano de 1983, depois de marcar 109 gols pelo alviverde, o já renomado centroavante deixou Campinas e rumou para São Paulo, onde defenderia o tricolor, que pagou 1 milhão de dólares (quantia exorbitante na época) e cedeu o promissor Éverton ao Guarani para vencer uma ferrenha disputa com o Palmeiras na busca por contar com o futebol do campeão brasileiro em 78.

Da desconfiança a consagração

Careca SPFC 2

Foto: Placar

Quando chegou ao Morumbi, Careca convivia com uma série de problemas físicos, já contava com uma operação no joelho e, em dezembro de 1983, era diagnosticado com um tipo raro de artrite, que o tornava muito mais frágil que os companheiros. Teve paciência para tratar e reconhecia que a lesão era complicada já que poderia levá-lo a encerrar a carreira. Em virtude disso, foi submetido a um árduo processo de tratamento que o deixou longe dos gramados até junho de 1984 e levantou dúvidas na torcida. Será que aquele atleta era mesmo tudo aquilo que falavam?

A desconfiança passou no ano de 1986, quando o já maduro homem de frente tricolor foi muito bem na Copa do Mundo. Tentou na medida do possível evitar um fracasso, mas diante da frança, era dia de Joel Bats, não de Júlio César, que dirá o goleiro Carlos. Durante o Brasileirão daquele ano, chamou a responsabilidade para si, decidindo muitos duelos sozinho e consagrando-se com vários gols bonitos. Tremendamente dependente do futebol de Careca, o São Paulo chegava a decisão do campeonato e o atacante que já havia sido vital para levar o time até a decisão, voltou a aparecer, logo contra o Guarani, logo no Brinco de Ouro.

O placar apontava 3 a 2 para os donos da casa. Era o último minuto da prorrogação. O São Paulo precisava do gol para seguir sonhando em ser campeão. Um chutão despretensioso veio de trás, Pita desviou de cabeça na entrada da área e, mostrando que conhecia como poucos os atalhos do estádio campineiro, Careca apareceu pelo lado esquerdo do ataque para marcar o gol que levaria a peleja para os pênaltis, onde o Tricolor do Morumbi conquistaria seu segundo título brasileiro.

Volta ao mundo e a era “Carecone” no Napoli

Careca Napoli

Foto: Imortais do Futebol

Mais uma vez campeão brasileiro e cada vez mais consolidado na seleção, Careca foi atrás de novos desafios. Rumou para a Itália, onde defenderia o Napoli. Contaria com a companhia de ninguém mais ninguém menos do que Diego Armando Maradona e, claro, que marcaria época pelas bandas de Nápoles.

Até então pouco conhecido, o Napoli passou a ter grande projeção depois das emblemáticas atuações do brasileiro e do argentino que desfilavam um nível de entrosamento tão grande quanto arroz e feijão, tampa e panela, queijo e goiabada. Não à toa, essa liga que a dupla deu foi fundamental para que o clube sagrasse campeão da Copa da UEFA em 1989, do Italiano e da Supercopa em 90.

Aliás, 1990 foi um ano marcante para Careca. Apenas no âmbito clubístico já que, com a seleção, amargou a decepção na Copa do Mundo junto a toda a apática equipe comandada por Sebastião Lazaroni. Passados seis anos no Napoli, o ano de 1993 marcou mais uma mudança para Careca, que partiu pra o Japão, ajudou o Kashiwa Reysol a subir para a elite do futebol japonês e ficou até 1997 por lá.

Com 37 anos, o rodado e consagrado atleta ainda defenderia o Santos em uma passagem em que a idade avançada prejudicou bastante e fez com que ele decidisse por pendurar as chuteiras num futuro não muito distante. Fora dos gramados, ainda tinha tempo de fundar o Campinas e jogar a série A-3 do Paulistão pelo clube em 1998, além do Campeonato Gaúcho de 99 pelo São José. Aí foi que o artilheiro abandonou o esporte de vez.

Em 2005, já com 45 anos, fez uma pausa na aposentadoria para defender o Garforth Town, equipe da oitava divisão da Inglaterra. Em um amistoso, mostrou os mais jovens um pouco de toda a classe que um dia exibiu no futebol, com aquela capacidade incrível de resolver seus jogos e judiar dos goleiros.

Foi numa entrevista a revista Placar no ano de 1985 que confessou: “Eu gosto de fazer gols bonitos. É gostoso judiar de zagueiro, mas é melhor ainda judiar de goleiro”. Seguindo esse script de tentos acima da média que Antônio de Oliveira Filho, que de careca nada tinha, consagrou-se como um dos maiores atacantes de todos os tempos.

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