Mané

Garrincha foi o maior reflexo da arte dentro do futebol em tempo de botinadas, faltas violentas e ausência de cartões amarelos e vermelhos; 30 anos após a morte do anjo das pernas tortas, ainda há discussão sobre suas pinturas dentro de campo.

É fácil sintetizar em algumas palavras o que Garrincha significou para o futebol: tudo e mais um pouco. Incontestavelmente gênio, talentoso, decisivo e malandro, Mané representou o romantismo de uma época que deixa saudades. Saudades pela arte transportada para os gramados, de craques que o Brasil ainda tenta encontrar sucessores.

Manuel Francisco dos Santos é talvez o maior driblador que este mundo já viu. Driblava adversários sem piedade, entortava colunas de zagueiros e volantes, laterais e goleiros indefesos diante de sua imprevisibilidade. Antes que alguém o pinte como super herói de um esporte em que nem sempre o mais talentoso leva a melhor, é importante que se ressalte: Mané era um ser humano comum.

Comum como era, nascido no município de Magé, Garrincha passou a ter a bola como companheira desde criança. Como adulto, as mulheres, e claro, a bebida. Parece fácil sucumbir à perdição quando se tem fama e reconhecimento. Ávido pela baderna, tal como era por balançar as redes, o carioca sempre voltava para sua terra natal quando podia. No distrito de Pau Grande, era rei da pelada local e de lá saltou direto para o Botafogo. A história em torno de sua contratação pelo Glorioso até hoje corre mesas de bar e livros sobre aquele período dourado do Fogão.

A lenda dá conta de que o ponta direita ainda defendia o Esporte Clube Pau Grande quando participou de um teste com o elenco do Botafogo. Ao se deparar com Nilton Santos, um dos maiores laterais esquerdos que se tem notícia, o ousado rapaz de Magé driblou de forma insolente o adversário, numa prova de que nenhum tipo de intimidação funcionaria com ele.

O ano era 1953, e a partir daí o menino com apelido de passarinho iniciou sua caminhada como craque e lenda que nunca deixou de ser. Sua rotina envolvia desfilar pela direita, humilhar os indefesos adversários e incitar aplausos intermináveis nas bancadas. Foi assim por 12 anos no Botafogo, onde ergueu duas taças do Robertão, um Rio-São Paulo, três cariocas e três Torneios Início.

Convocado para a seleção brasileira desde 1957, Mané era um dos destaques do escrete comandado por Vicente Feola que conquistou a primeira Copa do Mundo pelo Brasil em 1958, na Suécia. Quatro anos depois, no Chile, renovou o caneco e fez o planeta todo conhecer a sua finta, sua habilidade. Todos queriam saber o que é que aquele rapaz de pernas tortas tinha a mais do que todo o resto. Mané parava com a bola nos pés e ai do zagueiro que se atrevesse a tentar o bote. Poucos saíram vitoriosos do duelo contra a ginga de Garrincha.

A Alegria do Povo também defendeu as cores do Corinthians, em 1966. Campeão do Rio São Paulo, Mané provou que aos 33 anos ainda podia ser útil. Uma tentativa de empréstimo ao Vasco foi barrada pelos dirigentes cruzmaltinos, que não acreditavam que a forma física do craque era ideal.

Paz e decadência

A vida agitada extra-campo já estava cobrando o seu preço. Entregue aos problemas que a bebida traz, Garrincha ainda tentou resgatar a alegria de outrora no Flamengo, em 1968, mas não obteve êxito. Ainda em 1972, jogou pelo Olaria, onde fez seu último gol, em março.

Atração por onde passava, chegou a disputar amistosos por vários outros clubes como Fortaleza, Novo Hamburgo, Portuguesa-RJ, Júnior Barranquilla, Millonarios e Red Star Paris. Mesmo em idade avançada, tinha lá seu carisma de pessoa simples, às vezes até confundindo a simplicidade com a ingenuidade. E assim passou seus últimos anos na miséria.

Desapegado dos valores que recebia em seu auge, constantemente torrava seu dinheiro sem parcimônia. Quando mais precisou dessas economias para lutar contra o seu frágil estado de saúde, Mané pereceu. Quis parar de beber, quis arrumar sua vida, mas talvez fosse tarde demais para tentar a sorte num país que era cada vez mais fechado, prejudicado pela constante vigilância dos militares.

Não que Manuel fosse um subversivo, um comunista como muitos de seus colegas eram acusados. Queria viver, sabia fazer isso do seu jeito. Dizia sempre que o jogador de futebol era pobre por natureza. Mané virou pobre por opção, ou mais por falta de precaução. Foi esquecido pelo povo e seus velhos amigos de Botafogo, mas nem assim conseguia guardar mágoas.

Se pudesse, provavelmente teria envelhecido em uma mesa de bar ou jogando com os vizinhos em Pau Grande. Não envelheceu, perdendo a queda de braço contra uma cirrose hepática. Três anos antes de sua morte, em 1980, desfilou pela Mangueira, sentado no carro alegórico e de uniforme da seleção brasileira. Abatido e já debilitado pelos anos de forra, o craque se emocionou ao olhar o povo lhe ovacionar como anos antes, no Maracanã.

É possível se dizer que a última vez que Mané brilhou em vida, foi na Sapucaí, mesmo estático em cima do carro. Antes de completar 50 anos, se deixou levar. Num desses carrinhos que a vida dá, partiu. Velado debaixo da bandeira do seu querido Botafogo, deixou uma imagem triste de despedida. Uma despedida que poderia ter acontecido anos antes sem que o grande público notasse.

Garrincha foi esquecido como pessoa e talvez até quisesse assim, em busca da sua paz. Só não merecia ser pago com desamparo por toda a sua arte e sua fantasia. Já se fazem 30 anos desde seu fim, e até hoje não se viu nada parecido.

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