Petkovic, o Rambo dos Bálcãs

Pet foi um dos primeiros europeus a brilhar no futebol brasileiro: chegou e ganhou fama no Vitória, mas foi no Flamengo que teve seu auge em duas oportunidades.

Desde os primórdios do futebol brasileiro, era quase impensável que um europeu viesse para essas terras e fizesse sucesso. Até os anos 1990, de fato isso não ocorreu. Foram poucos exemplos de atletas de outros continentes que vingaram por aqui. Certamente o primeiro a virar estrela foi Dejan Petkovic, o Rambo.

Foto: Xtratime.org
Foto: Xtratime.org

Em 1988, quando começou no Radnicki Nis, já era conhecido pelo seu canhão na perna direita. Aos 16 anos, o meia sabia como poucos chutar de longe, bater faltas e dar passes valiosos para os companheiros. Três anos disso o colocaram no Estrela Vermelha, que em 1991 comemorava seu título europeu. Parte de uma geração inesquecível no clube sérvio, atuou ao lado de craques como Sinisa Mihajlovic, Vladimir Jugovic, Dejan Savicevic e Darko Pancev.

Cerca de quatro anos e mais de 100 jogos depois, Petkovic foi para o Real Madrid em 1995 com status de joia iugoslava, um dos mais promissores talentos oriundos do país. Entretanto, teve poucas chances, ficou relegado e acabou emprestado ao Sevilla. Repetindo o fraco desempenho, retornou ao Real e foi repassado ao Racing Santander, em 1996/97.

Foto: ECV Eternamente
Foto: ECV Eternamente

A série de andanças pela Espanha se encerraria com novo empréstimo: desta vez para o Vitória, que investiu pesado naquele ano, graças a um patrocínio milionário do Banco Excel (também entrou forte como parceiro do Corinthians). Lesionado, viu com bons olhos a brusca mudança de ares.

Apresentando seu cartão de visitas, o sérvio encantou a torcida baiana com seus gols de falta, assistências e técnica invejável. Ao lado de Túlio, comandou o Leão naquele ano de 1997. Em 1998, virou destaque no Brasileirão e logo era estrela não só do Vitória, como do futebol nacional. Foi interessante para o Brasil ter um gringo em alto nível no seu campeonato.

Tantas boas partidas fizeram com que Pet chamasse a atenção de grandes clubes locais. Artilheiro da Copa do Brasil de 1999, era objeto de cobiça pelos outros concorrentes dentro do país. Frustrando a várias equipes brasileiras como São Paulo, Flamengo e Palmeiras, Dejan foi mesmo para o Vicenza, após chegar perto de levar o troféu de Bola de Ouro em 1998. De saída para a Itália, enfrentaria novas dificuldades de adaptação.

O jeito mesmo foi aceitar o convite do Flamengo, que dessa vez foi atendido. Um dos casamentos mais bem sucedidos da década de 2000. Querendo ostentar a boa parceria com a ISL, o rubro-negro pagou cerca de 6 milhões de dólares pelo passe de Pet. Com a oportunidade perfeita de se consolidar na Gávea, o sérvio agarrou com todas as forças as oportunidades dadas pelo treinador Paulo César Carpegiani. Nem com a chegada de Zagallo, Rambo teve seu posto ameaçado.

Foto: O Globo
Foto: O Globo

Embalado, o Fla ganhou uma injeção de ânimo com a presença de Dejan na meia cancha. A série de dez partidas invictas terminou justamente na decisão da Taça Guanabara de 2000, diante do Vasco de Romário. O troco contra os cruzmaltinos veio na final da Taça Rio, onde a equipe da Gávea se sagrou campeã estadual. Um ano médio, apesar de toda a constelação que desembarcou no clube. O elenco não rendeu nada do que era esperado.

2001, mais uma onda de decepções, apesar de um acontecimento ter marcado o torcedor para toda a vida: Pet decidiu novamente contra o Vasco no estadual. Os lances derradeiros daquele clássico no Maracanã ainda permanecem vivos na memória do flamenguista, que sorri como se fosse ontem. 2-1 foi o placar da primeira partida e o rubro-negro precisava abrir dois de vantagem se quisesse erguer o caneco outra vez. 43 do segundo tempo, 2-1 para o Mengo, falta em Edílson na intermediária. O gringo caminhou com tranquilidade e bateu com perfeição: Hélton saltou para não encontrar nada no caminho, a bola passou por cima dos braços do vascaíno e morreu no ângulo da baliza do Maraca.

Incrédulo pelo feito e por garantir o título em cima do rival, Petkovic deitou na lateral e levou as mãos ao rosto: Flamengo tricampeão estadual. Parecia irônico e pouco provável que meses depois, ele estaria do outro lado, defendendo o Gigante da Colina. As primeiras divergências com a diretoria flamenguista fizeram com que Pet, o xodó, resolvesse por ir jogar no Vasco.

Negociado em 2002 com o rival, Dejan não teve tanto sucesso. Disputando boas partidas no Brasileirão daquele ano, apenas em 2003 teve prestígio em São Januário. Antes da segunda partida da decisão do Carioca, contra o Fluminense, o gringo foi vendido outra vez. O Shanghai Shenhua comprou os direitos de Pet por 10 milhões de dólares, impedindo que ele se sagrasse campeão estadual pela terceira vez em quatro anos.

Andanças e segundo casamento com o Fla

Cigano da bola, o sérvio passou mais uma vez por São Januário em 2004 antes de iniciar uma peregrinação no Brasil. Pioneiro nas honrarias, o meia venceu o troféu Bola de Prata da Revista Placar em 2004, feito que repetiria em 2005. Sua última experiência fora do país que o adotou como um dos seus foi na Arábia Saudita pelo Al-Ittihad, em 2004/05, onde venceu a Copa Árabe e a Liga dos Campeões da Ásia. Reforço do Fluminense em 2005, disputou mais um Carioca e comandou o tricolor no Brasileiro, em campanha que culminou no quinto lugar no nacional, perto de uma vaga na Libertadores.

Mudando completamente de ares, Pet partiu para o Goiás, em 2007, fazendo talvez seu campeonato brasileiro mais discreto em quase uma década no país. Lesionado, optou meses depois se juntar ao grupo de Wanderley Luxemburgo no Santos, onde reencontrou o bom futebol, mas no fim do ano não acertava a bola e acabou virando peça no banco de reservas. Dispensado, foi parar no Galo, em 2008.

Quebrando tudo nas assistências, não durou até as festas de natal e ano novo, quando foi preterido por Leão, assim como em seus tempos de Vila Belmiro. Sem muitas perspectivas e quase aposentado, resolveu negociar uma última vez com o Flamengo em 2009, para sanar dívidas que o clube tinha com ele. A chegada não impressionou e muito menos empolgou a ninguém, visto a recente forma do sérvio. Pouco depois, com a contratação de Adriano, que havia anunciado meses antes sua aposentadoria do futebol pela Internazionale, o elenco rubro-negro começava a ser montado.

Com a 43 nas costas, número que relembrava o feito histórico da decisão do Carioca de 2001, Pet não tinha nada a perder. E foi com essa mentalidade que jogou tudo o que sabia, para a sorte do Flamengo. Uma arrancada extraordinária do Fla no Brasileiro terminou com um título que poucos esperavam. Embalado, o Mengão tomou o caneco de um Palmeiras decadente nas últimas rodadas, numa missão que teve um excelente trabalho conjunto do sérvio e do Imperador, em grande fase.

A marca dessa ressurreição veio justamente contra o Palmeiras, em outubro no Palestra Itália. Um gol olímpico selou a vitória por 2-0 sobre os paulistas, que já geravam certa desconfiança a respeito de sua situação na ponta da tabela. Sem ter nada a ver com isso, os cariocas já chegavam a uma série de nove jogos invictos.

Aos 37 anos, Rambo parecia um garoto em campo, representando um dos pilares naquela equipe flamenguista. E tudo deu certo no final, quando na penúltima rodada o rubro-negro assumiu a liderança. O triunfo sobre o Internacional, que sonhava com o tetracampeonato foi concretizado dentro do Maracanã, diante do Grêmio, de virada, por 2-1. A nação foi à loucura e fez o estádio de salão de festas, como já estava acostumada nos anos 80. Foi a vitória dos desacreditados e subestimados, um retrato fiel do espírito de Petkovic, que ainda tinha o que festejar na Gávea.

Por fim, encarou um 2010 não muito feliz e seria afastado ao fim do contrato, em dezembro. Retornou em junho de 2011 para uma despedida oficial contra o Corinthians, em duelo que terminou empatado em 1-1. Em dois casamentos, dificilmente os flamenguistas se lembrarão de outro gringo que foi tão feliz no clube. Ainda que tenha vestido a camisa dos rivais Fluminense e Vasco, é questão de justiça colocar Petkovic entre os principais nomes do Fla na última década.

O futebol brasileiro talvez precisasse de um estrangeiro para provar que aqui não se joga futebol só com a ginga herdada do samba, a fala cantada e as frases fáceis dos malandros que nunca deixamos de criar. Tão importante quanto um nativo, o homem de nariz amassado e sotaque carregado pede passagem. “É o Pet, É o Pet, É o Pet, É o Pet. Nós temos Imperador, e também temos o Pet, o rei do gol olímpico, o goleiro nem se mexe” na rima de MC Robinho que embalou a conquista de 2009.

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