TF História: Ele é perigooooooooso, acabou!

Foto: Pase del desprecio
Lá em 1996, quando o futebol brasileiro ainda vivia o êxtase do tetracampeonato pelos pés de Romário, Bebeto e aquela turma lá, a expectativa era ganhar a primeira medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. 

Na fase de grupos, o Brasil perdeu do Japão por 1-0, venceu a Hungria e a Nigéria para avançar às quartas de final. Passando por Gana no primeiro playoff, a vitória de 4-2 serviu para dar moral aos comandados de Zagallo. O passo contra os Estrelas Negras foi importante e nas semifinais, novo duelo contra a Nigéria, que na primeira fase não foi boa o bastante. 

Em Athens, Georgia, uma tarde ensolarada foi o plano de fundo para mais uma possível vitória do Brasil. Possível. Do lado africano, alinhavam Dosu, Uche, West, Babayaro, Oparaku, Amunike, Kanu, Lawal, Okocha, Amokachi e Babangida. Dida, Aldair, Ronaldo Guiaro, Roberto Carlos, Zé Maria, Zé Elias, Flávio Conceição, Amaral, Bebeto, Juninho e Ronaldo eram os onze canarinhos para o duelo de semifinal.

Flávio Conceição não precisou nem de dois minutos para abrir o placar, numa bela cobrança de falta, acertando o canto do arqueiro Dosu. O gol inaugural não assustou os destemidos nigerianos, que logo nivelaram a peleja e partiram pra cima. 

Logo o passe envolvente das Águias Verdes dominou o meio campo e era questão de tempo para que o empate saísse. Babayaro, em lance de Robinho, pedalou na frente de Zé Maria e cruzou. Roberto Carlos tentou cortar e fez contra, para o desespero da torcida que já sentia que o abacaxi ia azedar de vez. 1-1. No banco de reservas, Zagallo fez cara de peru em fevereiro e pode ter pensado que “é, meu amigo, agora o bicho pega”.

Ronaldo, o fenômeno, ainda magrinho, foi quem reanimou o Brasil em campo. Disparando pela direita, ele cortou para o meio da área e finalizou. Dosu espalmou logo nos pés de Bebeto, que não teve trabalho para colocar o selecionado verde e amarelo na frente. Adquirindo o controle da situação, o esquete brasileiro ampliou o placar para 3-1 quando Conceição dominou um passe de peito por parte de Juninho e tocou por cima do guarda redes. Golaço. Rumo ao ouro, dizia Luciano do Valle. Estava empolgadão o Bolacha.

Na emissora do Plim Plim, Galvão Bueno adotou um discurso de zebra absoluta, na crônica pós-jogo. “Nunca foi tão fácil chegar numa final de Olimpíada“, levando em conta o resultado parcial na primeira etapa. Bem verdade, Galvão, mas se o futebol fosse só jogado em 45 minutos, muitas das belas e cruéis histórias que a gente cresceu ouvindo não aconteceriam.

Registre-se que o Brasil era sim favorito, mas essa talvez tenha sido a primeira lição e o primeiro castigo para a arrogância do futebol até então tetracampeão mundial. Aprendemos a entrar de nariz empinado e sermos sempre os melhores, não importa quem venha do outro lado. O chicote viria sem piedade nos 45 minutos derradeiros.

Juninho, impedido, fez o quarto gol, devidamente anulado. A Nigéria, pouco se importando com a sua fragilidade defensiva, se lançou ao ataque e infernizou a retaguarda brasileira, que estava aflita e complicando simples jogadas. Conceição faz pênalti. Okocha bate e Dida voa para defender. Estamos bem, pensou o torcedor. Sorte nunca falta aos campeões, um bom presságio. Ronaldo chutou na rede pelo lado de fora, e daí em diante, o filme virou um dramalhão. 

Aos 33, Ikpeba, o pequeno grande homem, completou contragolpe letal e arrematou forte para vencer Dida, num chute cruzado e sem chances. Se tratando de uma guerra entre Davi e Golias, Davi dava uma pedrada nos olhos do gigante. A primeira das traquinagens da tarde. 3-2.

44 do segundo tempo. Bola na área do Brasil. Quem é que sobe? A pelota pipoca na frente de três brasileiros, mas quem pega é o nanico Ikpeba, que toca para Kanu. O grandalhão, que em algumas regiões do nosso país seria apelidado de Tira coco sem vara, deu um drible desconcertante em Dida e empatou. 

Com o jogo praticamente ganho, a tão temida Seleção de Zagallo estava prestes a encarar o letal Gol de ouro. Gol de ouro. Gol de bronze. Oruma ajeita no peito e faz o lançamento longo. A bola bate nas costas de Ikpeba e sobra para Kanu. A seguir, palavras do próprio Galvão: KANU, ELE É PERIGOSO, ENTROU BATEU ACABOOOU. TERMIIINA O JOGO, TERMINA A SEMIFINAL, ACABA O SOOOONHO DE OURO BRASILEIRO!

Após o golpe final do grandalhão nigeriano, ficou a dolorosa lição de que o melhor também tem de fazer por merecer suas conquistas. Não à toa, essa Nigéria bateu na Argentina e se sagrou campeã olímpica pela primeira vez, com o mesmo requinte de crueldade. Levando gol logo no início e sacramentando a vitória no soar do gongo. 

O sonho do ouro segue distante. Em 2008, outra derrota na semifinal, desta vez para a Argentina de Messi e Agüero em Pequim. Mas isso é história para outro post…

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